A EVOLUÇÃO NÃO PÁRA
A indústria calçadista não pára de evoluir. Embora, as vezes, a evolução é tão sutil, que passa despercebida áqueles que se tornam escravos de rotinas cansativas, repetitivas e não tem nem tempo, nem animo de observar o que acontece em redor.
Analisando os últimos trinta anos de evolução podemos distinguir claramente três estágios evolutivos, que contribuíram fortemente para formação da mentalidade e do mercado. O primeiro marco da evolução foi a criação da consciência de QUALIDADE. Hoje está tão firmemente estabelecida que, a ninguém ocorre, apregoar que o produto dele tem qualidade. Grande coisa! É uma obrigação e quase uma condição para permanecer no mercado ou ser competitivo.
O segundo passo na evolução foi a criação do conceito do CONFORTO. Lá se foram os anos onde balconistas afirmavam com convicção de que o calçado novo sempre aperta, mas com o uso vai “lacear”! Será que alguém ainda acredita nesta história? O calçado deve estar confortável no primeiro calce. Não é o meu pé que irá corrigir anatomia de uma forma mal construída.
O terceiro estágio de evolução está presente hoje, está em execução, ou pelo menos começou preocupar uma boa parte dos empresários. Trata-se do estágio de SAÚDE. Cada vez mais as pessoas tentam viver uma vida saudável em contraponto às solicitações desumanas da vida moderna. O conceito de saúde está se expandindo cada vez mais em todas as direções. Não é só o combate à vida sedentária. Não é só a nutrição saudável, o abandono do fumo e do álcool. São atividades físicas cada vez mais difundidas, a proliferação das academias e de programas públicos orientando a população para uma vida saudável.
O slogan que nos diz que a saúde começa com pés saudáveis tem sua razão de ser. A procura por materiais que atendem à saúde dos pés achou o caminho até para a legislação. A proibição do uso de penta-cloro-feno foi introduzida há muitos anos atrás, mas a proibição de mais de 13 mg de cromo hexavalente por quilo de couro, na União Européia, é recente e muita gente ainda, desconhecendo o fato, tem sofrido grandes prejuízos econômicos.
Tipo de acabamento de couro, que na procura de beleza e de originalidade torna o couro natural em produto sintético, absorção de umidade dos pés pelos forros de calçados, leveza e flexibilidade da construção, tudo isso são aspectos que hoje, um empresário atualizado, não pode deixar de observar e acompanhar por ações.
A indústria de calçados está sujeita aos desafios, como qualquer indústria de quaisquer produtos. Embora no caso nosso as mudanças não são tão radicais, nem são perceptíveis à primeira vista, elas não deixam de existir. – Quem passou a vida inteira dedicada à indústria de calçados, como é o meu caso, basta fazer comparação dos últimos decênios.
Entrei há setenta anos atrás, nas indústrias Bata, na ex-Tchecoslováquia, na época sob ocupação alemã, em plena Segunda Guerra Mundial. A fábrica produzia entre muitos outros tipos de calçados, ao lado de botas térmicas para Luftwaffe (Força Aérea Alemã) calçados para civis, com a sola articulada de madeira, carinhosamente chamados de madeirinhos, porque o couro, escasso, era reservado para o Exército.
Quando conheci Franca na década dos sessenta, cada fábrica de calçado masculino que se prezava produzia o calçado palmilhado, sem dúvida, o calçado de construção mais sofisticada que existia, oferecendo um conforto, que hoje só ficou na memória. Os jovens de hoje nem sabem que este tipo do calçado ainda existe e é fabricado por firmas tradicionais na Inglaterra e agora começando na Índia, por preços, que justificam a exclusividade.
Depois veio o calçado colado, uma revolução completa – onde já se viu a sola sem costura? Seja blakeada ou ponteada, tem que costurar! A costura é que segura a sola! Alguém hoje ainda teria coragem de afirmar isso? Depois veio a injeção direta da sola sobre o cabedal montado e, hoje, só nos resta fazer especulação sobre o que está por vir.
Os conceitos de qualidade, de conforto e de saúde estão diretamente vinculados às tecnologias aplicadas. Seguem roteiros diferentes mas, a finalidade de qualquer evolução tecnológica, doravante terá que seguir estes pontos de evolução já conquistados.
Não tenho autoridade para comentar sobre outros ramos industriais. Dediquei a minha vida à indústria de calçados. Mas de uma coisa tenho certeza: é altamente motivador enfrentar os novos desafios que esta indústria nos oferece, as vezes de modo imperceptível, mas sempre nos levando a imaginar, pensar e agir.
Zdenek Pracuch
21/03/11