EXEMPLO EUROPEU

Já citei várias vezes aqui o nome da Bata Shoe Corporation como exemplo de uma empresa familiar, a qual graças a constante renovação e adoção de métodos de gestão sempre atualizados e criativos sobrevive há mais de 100 anos.

Hoje quero apresentar uma outra empresa, que não é empresa de âmbito global como é a Bata, mas sobrevive na Alemanha, há mais de 125 anos. Aqueles que viajam pela Alemanha, com certeza já se depararam com lojas próprias da Lloyd Schuhe, mais de 60. Hoje produz 6.800 pares por dia, dos quais ainda 1.800 diretamente na Alemanha. Dois terços da produção são vendidos nas lojas de varejistas independentes ou exportados.

Mas, o que nos pode servir de modelo para o planejamento do êxito a longo prazo é a adaptação dos métodos de trabalho à situação do mercado, que está em constante mudança. Da interpretação destas mudanças e da rápida adaptação a elas depende a sobrevida de qualquer empresa. Mais ainda na indústria de calçados que, além das oscilações no quadro econômico, ainda sofre os ditames e caprichos da moda.

Exemplo vivo da necessidade da rápida adaptação às condições atuais do mercado pela Lloyd Schuhe é a abertura de um enorme depósito de calçados para entrega imediata, com capacidade para 500.000 pares e possibilidade de processar, isto é separar, embalar e remeter 2.000 pares por hora. Mas o que levou a Lloyd Schuhe a mudar profundamente a política de atendimento dos varejistas alemães?

Adotar o sistema foi resposta à “constante e crescente necessidade” dos varejistas alemães com respeito à estocagem e manutenção de coleções de calçados, segundo a Lloyd Schuhe. Os varejistas, hoje em dia, fazem pedidos de acordo com a capacidade dos seus estoques, para otimizar o espaço e permitir rápida acessibilidade. Ninguém quer manter estoques elevados, principalmente por causa do alto custo do capital envolvido. Diferentemente do Brasil, a absoluta maioria das compras é feita à vista.

A informática também contribuiu, inclusive com projeções de comportamento de determinados modelos, quanto ao seu giro, mais rápido ou mais fraco. Os dados gerados desta maneira são aproveitados para fazer pedidos que têm que ser atendidos com a maior rapidez e aí entra em cena a organização do depósito central da indústria.

Neste tipo de relacionamento entre produtor e comprador está ganhando cada vez mais importância a rapidez do atendimento que é crucial por parte do fornecedor. O pessoal da Lloyd Schuhe tem uma aguçada sensibilidade para este ponto, baseada na experiência diária das sessenta lojas próprias.

É obvio que uma indústria de porte pequeno ou médio não irá manter estoque de dezenas ou centenas de milhares de pares de calçados em depósito a espera de pedidos. Tão pouco irá dispor de informações de primeira mão, sem nenhum vício, coletadas pelas lojas próprias. Mas, cabem duas lições: a primeira é sobre a importância vital da pesquisa do mercado, do cuidado no lançamento de novos modelos, da importância do timing adequado, nem muito nem pouco, nem cedo nem tarde demais. Os erros neste sentido podem ter um custo proibitivo e ameaçar a própria sobrevivência.

A segunda lição é sobre a importância da abertura de lojas próprias ou franqueadas, podendo, para este fim serem criadas associações entre fabricante de calçado infantil, feminino e masculino, para oferecer um mix de produtos. Desde que obedecido o critério de lançamentos bem estudados em modelagem e cronologia.

De fato a comercialização e a estratégia de produção, no terceiro milênio, difere de tudo o que foi considerado como normal e provado até agora. Há necessidade de repensar toda a técnica de comercialização no sentido de atender ao mesmo tempo os ditames da moda, que está girando cada vez mais depressa,  e as necessidades de uma produção contínua, fluente, associados os dois à uma rapidez de atendimento, que até hoje foi bastante negligenciada.

É um desafio bem grande, mas se uma velhinha de 125 anos, como a Lloyd Schuhe, tem coragem de mudar, o que deveríamos esperar das empresas que na sua grande maioria não completaram os 50 anos? Único conselho a ser dado é: não esperem muito, o tempo não está sobrando. Pode ser que não alcançarão os 50 anos de sobrevivência.

Zdenek Pracuch
19/11/12