ESTRATÉGIAS
Como está sendo abusado este termo! Planejamento estratégico para as empresas ficou na moda e um bando de “consultores” fatura bem sobre a ingenuidade de empresários ansiosos para se atualizar e descobrir um meio como fugir e se garantir contra as incertezas do mundo dos negócios.
O conceito de estratégia foi incorporado da técnica da vida militar. Onde estratégia está muito bem definida, por exemplo, temos que conquistar aquela elevação ou conquistar uma cabeça de ponte. Perfeito. O objetivo estratégico foi definido. Agora começa planejamento tático, onde definiremos quais e quantas unidades serão envolvidas, qual será o apoio de artilharia, da aviação, será definido o inicio da operação etc.
Dá vontade rir, quando nos é apresentado um “plano estratégico” com números definidos, porcentagens até as decimais etc.. Basta uma ligeira variação cambial e todo este plano vira papel de embrulho. Porque estratégia é definir o que vamos produzir, para que mercado, qual será a faixa de preço, como será organizada a força de vendas e todo o mais, em linhas gerais, sem detalhamento.
Os números vêm depois. Por que? Mudar os sistemas necessita de um click na mouse. Mudar os processos pode levar meses. Mas mudar a cultura de uma empresa, a maneira como os funcionários pensam e se adaptam às novas formas de agir e, principalmente os donos ou gerentes, pode levar anos.
E neste meio tempo, que valor podemos atribuir aos números? Mais ainda, aos números projetados sobre os acontecimentos futuros? Já temos dificuldades em trabalhar com números dos acontecimentos recentes ou do passado não tão remoto.
Sempre desafio os empresários a apresentarem números atuais e, principalmente, confiáveis sobre os seguintes dados – resultados econômicos semanais, controle de capital de giro semanal, acompanhamento do valor da mercadoria em giro semanal, produtividade em unidades e em valor, bem como o valor de todos os estoques – matéria prima, insumos, embalagens, inflamáveis, peças e produtos acabados.
Pela experiência, sei que são pouquíssimas empresas que têm condições de responder satisfatoriamente a todos os quesitos acima citados. Mas para uma boa gestão, atualizada e capaz de reagir imediatamente a qualquer desvio identificado, todos estes dados são absolutamente imprescindíveis. Porque nos faltam estes dados, quando a implantação destes controles leva no máximo duas, sim senhor, duas semanas, desde que a parte da informática se engaje e colabore?
Esta falta de dados nos impede de fazer um planejamento tático após o planejamento estratégico ter definido a filosofia e a política de atuação da empresa. Uma vez definida a estratégia, o passo seguinte é planejamento tático, chamando-o de programação, onde precisamos de números para avaliar a produção e produtividade, levando em conta a existência de equipamento e de mão-de-obra.
Causa estranheza onde o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IedI) foi buscar os seus números para opinar sobre o universo das indústrias de calçados brasileira, quando sabemos, que pouquíssimas empresas teriam condições de fornecer dados sobre a produtividade, custos e custo de mão-de-obra.
O Estado de São Paulo, na edição de domingo de 24.2.2013 publicou uma extensa matéria sobre o aumento do custo de trabalho nos últimos 11 anos, dados estes levantados pelo IedI. Mas como aceitar estes números como a última verdade, quando sabemos da não existência ou a precariedade dos dados disponíveis na indústria de calçados?
Na indústria de calçados e couro que, pasmem, desta vez foi destacada como unidade e não figurou, como geralmente figura junto com “outras indústrias”, a produtividade foi avaliada com crescimento de 3 %. Faltou dizer qual foi o critério da avaliação, se por unidades ou por valor produzido.
Folha de pagamento teve aumento de 5,7 % e o custo de trabalho (?) 2,6 %. Muito bem, se este é o quadro geral da indústria e os números são confiáveis, poderíamos considerar o aumento de produtividade de 3 % como meta para o nosso planejamento tático? Se este foi o resultado da indústria de calçados, como um todo, nada mais justificável de programar esta meta para a nossa empresa também. Mas, a dúvida permanece: aumento em unidades ou em valor produzido?
Como se vê, planejar no Brasil não é tarefa fácil. Que o diga o ministro Mantega que, coitado, não acerta uma previsão! E olhem que tem a disposição dele a fina flor do funcionalismo, que não faz outra coisa a não ser caçar e juntar dados estatísticos! Felizmente para nos, pobres mortais, ainda não foi revogada a regra de ouro de uma boa gestão, praticada pelas Organizações Bata há mais de cem anos – planejar, programar, produzir e controlar, controlar e controlar. Podem chamar isso de estratégia. Funciona.
Zdenek Pracuch
01/04/13