NÃO ESTAMO SÓS                                                                                         

Semana passada, na volta de Johannesburg, notei que mais da metade dos passageiros no avião eram chineses. Alguns com famílias – destino São Paulo. Obviamente não se tratava de turistas. Eram, até pelo aspecto, membros da classe média. Pensei comigo mesmo – a fronteira está aberta e a invasão começou. Mas não estamos sós com esta ameaça e aflição.

Conforme me disseram os amigos sul-africanos, eles estão sofrendo do mesmo mal. Não foi a miopia ou motivos ideológicos como no caso do Brasil, foi uma ação pensada do governo deles, que quis se mostrar grato pelo apoio que recebeu do governo chinês durante a luta do Apartheid e abriu a fronteira comercial. Aliás não só a comercial, porque chineses entram na África do Sul sem visto e isto também é motivo de viajar para O Brasil via África do Sul, porque para entrar na Europa, mesmo como escala, fica ás vezes complicado.

Como a entrada dos chineses na África do Sul já aconteceu há alguns anos, os frutos já são bem sentidos. A taxa do desemprego alcança 26% e a mortalidade das pequenas indústrias é enorme. Não tem como competir com os artigos importados. As confecções, que eram a espinha dorsal dos empregos e das exportações sul-africanas, quase não existem mais. E as que existem estão emigrando para as nações vizinhas como Moçambique, na vã esperança, de que com salários de fome que se pagam nestes países, poderão escapar, pelo menos por algum tempo da fatalidade. 

Lá foi o sentido de gratidão que causou o desastre. Aqui foi a ideologia. A assessoria do senhor Marco Aurélio Garcia, que o presidente Lula chamou em má hora, que tenta fazer alianças com as “democracias” como da China, de Cuba, Venezuela, que promove visitas ao Muamar Khadafi, aos ditadores da África e quejandos, vai comprometer seriamente o programa de criação de dez milhões de empregos tão ansiosamente esperados após a eleição do governo petista.

O ministro Furlan, que ainda em Março dizia, que a abertura para China não irá prejudicar em nada indústria brasileira, já está mudando o discurso e há poucos dias atrás, começou falar em salvaguardas. Só que acordou tarde. As importações chinesas já estão aqui, agradando consumidores e fechando em primeiro lugar as confecções. A indústria de brinquedos e de calçados serão o próximo alvo. Salvaguardas? Com todo respeito, não me faça rir, senhor ministro. Basta os chineses fazerem cara feia e o discurso acaba. Para quem vai vender os seus frangos, a sua carne, a sua soja? Embraer vai voltar para São José dos Campos, para proteger a indústria de confecções, de  calçados, de brinquedos? Como dizia um dos personagens do Chico Anísio: Tu acreditas nisto, malandro? – Alguém ouviu falar sobre o desfecho que teve o caso dos navios brasileiros lotados de soja impedidos de atracar, porque chineses achavam que continham alguns grãos da soja transgênica? Silêncio total. Quanto custou esta cara feia dos chineses? Eram dezenas de milhões de dólares em jogo.

Este é o cenário montado. Vamos parar de ser ingênuos e tentar salvar o que ainda pode ser salvo. Estou agora falando aos empresários calçadistas. Já abordei em artigos anteriores as poucas armas que ainda nos restam para nos defender da invasão que já começou. Se cada vôo diário trouxer cinqüenta (só) chineses, façam a conta. Estes irão organizar as importações, fazer o levantamento de mercado, realizar o serviço de informação, etc.. E essa turma trabalha, não tenham dúvida.

Vou repetir mais uma vez o que ainda pode ser feito para, pelo menos atenuar um pouco os efeitos desta luta desigual. – Em primeiro lugar produzir com uma qualidade excepcional, á toda prova. Segundo – enxugar os custos, racionalizar a produção, evitar todo tipo de desperdício. E como ainda se desperdiça nas fábricas de calçados!! E terceiro – oferecer um serviço perfeito, desde o atendimento no telefone ou na portaria até o rigoroso cumprimento de prazos de entrega alem de um serviço impecável de pós-venda.

Tudo isso pode ser feito sem investimento algum, só pelo custo do treinamento dos funcionários. Treinamento e  motivação – porque estamos no mesmo barco – empresários e empregados. Mas temos que fazer um esforço sobrehumano para que esse barco não seja o Titanic.

Prometo aos meus amigos leitores, que esta é a última vez que falo do perigo amarelo. A não ser que tenha bons motivos ou boas notícias para dar. Mas enquanto reinar a incompreensão entre os que nos governam e o otimismo irresponsável entre os empresários que acham, que alguém vai cuidar do assunto ou que a situação se arruma por si mesma, vou me calar e observar. Pesaroso. Com pena dos pobres diabos e das famílias deles, que, no final, vão pagar a conta.
 
Zdenek Pracuch