ESPERAR MAIS O QUÊ?

Tivemos oportunidade de assistir durante o lançamento da Cartilha de Ergonomia a um pronunciamento do senhor Heitor Klein, diretor executivo da Abicalçados com respeito à invasão do calçado chinês, que continua a despeito da sobretaxa imposta sobre os calçados. A triangulação da operação, que há um século funciona no comércio internacional de armas foi prevista por todos, menos pelos burocratas trancados nos gabinetes de Brasília.

Um navio sai carregado do porto de Shanghai com calçado chinês para o Brasil, faz escala em Singapura ou Jacarta, troca os conhecimentos (Bill of Lading) de carga e neste momento carga muda de nacionalidade. A quem aplicar a sobretaxa?

Soma-se a isso a crônica deficiência de inspeção pela Receita Federal, desaparelhada completamente para esta tarefa nos portos brasileiros. No porto de Santos somente 3% dos containeres passam pelo canal “vermelho”! O recente escândalo da importação do lixo hospitalar norte-americano somente confirma o que disse o presidente da Abicalçados, senhor Milton Cardoso em 5 de junho de 2011 ao jornal Exclusivo: ”O Brasil não pode ser um queijo suíço nas suas fronteiras fiscais.”

Infelizmente, assim continua e assim o será ainda por muito tempo graças ao tamanho paquidérmico da burocracia de Brasília. Só nos resta rezar para que a indústria de calçados do Brasil sobreviva às pressões de importados até que alguma providência tenha lugar na agenda oficial. Mas a melhor politica será em não esperar nada e tomar providencias que estão ao nosso alcance.

As providencias governamentais não se restringem ao controle das importações. Onde está a reforma tributária que o ex- prometeu na campanha e depois durante oito anos, não fez nada, empurrou com a barriga e a deixou para a sucessora. E a reforma das Leis Trabalhistas oriundas da primeira metade do século passado? O mundo não estacionou e está hoje bem na nossa frente pelas condições que oferece aos empreendedores.

Nossos legisladores, com olhos nos votos, aprovaram noventa dias de pagamento do aviso prévio em determinados casos, esquecendo que o Fundo de Garantia foi criado exatamente para fazer frente a estas situações! E o que dizer sobre a tramitação de Lei de 40 horas de trabalho semanal, sem diminuição de salários? É deste jeito que vamos competir na arena global? É esta a política de criação de empregos? É esta política de industrialização do Brasil. É exatamente o contrário – esta é a politica de desindustrialização.

Nossos empresários são verdadeiros heróis. Combater nestas condições, posso comparar aos últimos combates do exercito alemão no final da guerra. Sei o que afirmo porque participei daquele drama. Tenho certeza que a indústria brasileira de calçados não irá capitular, mas a luta é como se diz na gíria militar “combate morro acima”.

Tem mais uma agravante. Pelas notícias dos últimos dias a China está diminuindo o ritmo do crescimento. Má notícia. Logo o maior parceiro comercial de hoje! Brasília terá coragem de desafiar o maior comprador de nossas commodities por causa da indústria de calçados? Tenho minhas dúvidas. O próprio Milton Cardoso estranhou que o estudo apresentado pela Abicalçados em fevereiro ainda está dormindo o sono dos justos nas gavetas de Brasilia.

O empresário brasileiro faria bem em abandonar os sonhos de crescimento “para fora” e tratar de crescer “para dentro”. Ou seja, não sonhar com grandes volumes de produção, mas aplicar todo conhecimento na criatividade, na qualidade do produto, no maior valor agregado e principalmente no serviço, atendendo com rapidez às necessidades do varejo até dentro das bruscas mudanças de moda, onde os asiáticos sempre vão chegar com atraso.

Sim, ainda temos muita munição para combater. Mas ficar esperando que o governo fará alguma coisa em defesa da indústria de calçados é sonhar de olhos abertos. Sem falar na agilidade e inventividade dos transgressores da Lei, que sempre irão achar um caminho alternativo para contornar as imposições da Lei. Exemplos não faltam.

Zdenek Pracuch
14/11/11