ESTAMOS ESPERANDO MAIS O QUÊ?

Tenho em mãos um e-mail de um importador da África do Sul, queixando-se da atitude de um fabricante de calçados brasileiro, que subiu preço cotado há seis meses atrás em 31 %, taxando este aumento de irresponsável. Não tenho elementos para discutir as razões do aumento, mas concordo que 31 % com toda a defasagem cambial é demais.

O que, infelizmente, ainda acontece é, que muitos dos industriais acham normal transferir para os custos e, por tabela, ao cliente as suas deficiências e desperdícios. Há muito tempo venho pregando a necessidade de adoção de métodos modernos de cálculo de custo e formação e preço de venda, de métodos de produção, mas pouquíssimos industriais se sentiram tocados para sair da acomodação e mudar os hábitos enraizados. Por comodidade, por desconhecimento? Não sei.

Parece que na maior parte é o desconhecimento dos métodos de trabalho já aplicados em outros países e ainda desconhecidos ou ignorados por nós. Na década dos anos cinqüenta do século passado a Samello era um sinônimo de modernidade em Franca. No entanto, Wilson Sábio de Mello, quando visitou na ex-Tchecoslováquia a fábrica da Bata (naquela época já expropriada pelo regime comunista) ficou boquiaberto quando viu funcionar as esteiras transportadoras nos pespontos e nas montagens.

E não descansou até que as implantou na sua fábrica de Franca. Data desta época a minha amizade com o amigo-irmão Delmo Poppi que veio vender ao Wilson uma esteira manual e tivemos uma discussão nada agradável, quando consultado por Wilson vetei o negócio, dizendo, que Delmo ou fabricava e nos vendia uma esteira mecanizada ou nada feito.

Delmo levou o desafio a peito e há pouco tempo me disse que chegaram a produzir a quantidade de esteiras na casa de quatro dígitos (o número exato guardo como segredo comercial). - O que representa este episódio? Representa a atitude de dois empresários de escol: não ter medo de inovar e aceitar os desafios.

Mas o que vemos por aí? A perpetuação de velhos hábitos, de métodos completamente obsoletos, usados diariamente nas fábricas de calçados, desperdícios absolutamente desnecessários, resultado de acomodação e de preguiça de pensar. Às vezes os desperdícios ficam mascarados pela tecnologia de ponta, mas que devidamente analisada se mostra prejudicial também.

Exemplo? Cálculo de consumo feito pelo programa de computador. Comparado o resultado do computador com o método clássico manual de paralelogramo (em atenção ao prof. Everton de Paula da Unifran parei de usar a palavra paralelograma – embora escrevi até um livro que está cheio dela), verificamos diferenças de até 30% no sistema Satra, (mas sempre há diferenças de 4 – 10 % a mais para cálculo de consumo!). A firma, que recentemente fechou usava o sistema Satra e quando perguntei ao diretor de exportação, se esta diferença estava no custo respondeu que, se assim fizesse, não venderia nada!

Será que o triste fim desta firma não era influenciado em parte por este tipo de pensamento? Para um leigo entender de que se trata, o computador calcula o consumo (da maneira como demonstrei acima) em questão de minutos. Um desenhista leva de duas a três horas para fazer o mesmo trabalho. O argumento dos defensores da informática é a rapidez do resultado. Será que compensa? Um desenhista junior raramente ganha mais de dois salários mínimos. Com o último aumento, três horas de trabalho dele custam R$ 15,56. E, quanto vão custar os, digamos, 4 % de desperdício pelo mau cálculo em 10.-, 20.- ou 50 mil pares de calçados?

Mas não se trata só de desperdícios de material ou insumos. A falta de organização ou de planejamento adequado é uma fonte considerável de aumento de custos e de desperdícios. Como se perde tempo em nossas fábricas carregando os produtos de um lugar para outro! O tempo é pago pela folha de pagamento, mas ao produto, com isso, não foi acrescentado nem um milésimo de real no valor!

Encontrei firmas com 28 planos de produção diária em giro! Quem trabalha com oito ou dez planos acha que está conseguindo milagre. Quando já temos hoje fábrica em Nova Serrana, sim senhor, em Nova Serrana que a dizer assim começou a produzir calçados ontem, fábrica esta que leva 1:40 (uma hora e quarenta minutos) entre colocar as peças cortadas na esteira e a embalagem para o despacho.

Meu amigo sul-africano está coberto de razão em estranhar e reclamar contra o aumento, para ele, incompreensível. Concordo que a defasagem cambial é responsável por uma boa parte do reajuste. Mas o problema reside na imobilidade do empresário, que simplesmente tenta repassar ao cliente a defasagem (e algunas cositas más) e a ineficiência da sua gestão.

A equação é simples: ou vamos ficar sentados, conformados com a obsolescência, esperando que o governo vai fazer alguma coisa (mas ninguém sabe o que deveria ser) ou mais cedo ou mais tarde vamos fechar as nossas fábricas, o empresário se retira para a fazenda comprada no tempo das vacas gordas e o funcionário vai buscar o seu seguro desemprego.

Zdenek Pracuch