A ÍNDIA ESTÁ DESPONTANDO
Quando há alguns anos atrás comecei escrever e alertar sobre o perigo que a China representa para o futuro da indústria de calçados não só no mundo, mas também para o Brasil, pouca gente me levou a sério. A China parecia estar num outro mundo, num outro planeta.
Confesso que, até para mim, que conhecia a indústria chinesa de perto, já que a firma sueca para a qual trabalhava na ocasião, fazia volumosas compras lá a mudança veio com uma velocidade inesperada. As enormes fábricas estatais chinesas aparelhadas para produzir centenas de milhares de pares por dia, pareciam mastodontes difíceis de se adaptar ao atendimento das demandas de um mercado global em constante mudança e evolução.
Ledo engano. A laboriosidade do povo chinês, a vontade de progredir economicamente na vida de milhões de chineses de espírito empreendedor permitiu fazer o inesperado. Em curtíssimo espaço de tempo, as enormes fábricas foram fracionadas e com a ajuda do capital e tecnologia importada foram criadas milhares de empresas modernas e produtivas que mudaram o panorama mundial da produção de calçados.
Pessoalmente, e escrevi sobre isso, acreditava que aquilo que a China conseguiu fazer, seria antes realizado pela Índia com sua tradição milenar no trabalho com couro, mão-de-obra tão abundante quanto a chinesa e com tradição de vínculo com o mundo ocidental, como herança de duzentos anos de colonização inglesa, representaria para nos uma ameaça muito maior.
Não é que a Índia deixou de ser uma ameaça. Só que a China reagiu mais rapidamente ao desafio. A Índia permanece aqui e a médio e longo prazo tornar-se-á um concorrente de peso. A China produz hoje dez vezes mais em numero de pares que a Índia. Acontece que a composição das camadas sociais da China é completamente diferente das da Índia.
Enquanto hoje já assistimos a emigração de fábricas chinesas para Indonésia (mais de duzentas até agora), para Vietnam e Cambodja, o potencial humano indiano sequer foi tocado. Na China onde o maoismo destruiu para gerações o sentido da propriedade particular entre os camponeses, na Índia este sentido nunca foi atacado.
Há alguns anos atrás a firma gaúcha Schutz distribui pela internet um vídeo muito infeliz sobre alguma fábrica indiana, onde operários trabalhavam em condições subumanas, sem o mínimo conforto e tecnologia. Não digo que isso não existe. Não precisamos viajar para Ásia. No Nordeste há “fábricas” deste mesmo tipo. O Schutz talvez não sabia que o grupo Bata tem entre as dezenas de fábricas no mundo a sua maior fábrica na Índia, em Batanagar (cidade do Bata) com 30.000 funcionários, entre curtume, fábrica de borracha, fábrica de calçados, fábrica de máquinas etc.
Quando Milton Cardoso, presidente da Abicalçados decidiu comprar uma fábrica na Índia para o grupo Vulcabrás, comprovou a sua visão de estrategista a médio e longo prazo. A indústria de produção em grande escala só poderá sobreviver, se tiver um manancial de mão-de-obra abundante, barata e fácil de ser treinada. E estas premissas já existem na Índia.
Se analisarmos os salários pagos na Índia pela taxa de câmbio, teremos a impressão que voltamos aos tempos da escravatura e as pessoas trabalham debaixo do chicote do feitor pelo puro sustento. Mas não é nada disso. Na região de Kanpur, que concentra grande número de curtumes e de fábricas de calçados, um salário de US$ 24,00 por mês é um salário com que as famílias sonham. A família que consegue colocar um membro seu numa indústria assim, considera se afortunada.
Dos vinte e quatro dólares, talvez, quatro serão gastos com compra de querosene, açúcar, fósforos ou algo que não pode ser produzido na propriedade rural. O resto será guardado, para no fim do ano, ou quando houver oportunidade, comprar mais uns palmos de terra, um búfalo, quem sabe umas cinco cabras! Para poder avaliar este modo de vida, temos que esquecer tudo a que estamos acostumados pelo nosso modo de viver. Somados a estes fatos o fatalismo das pessoas que nasceram numa determinada casta e que não tem nenhuma perspectiva e nem desejo de subir para uma posição social mais elevada, este fatalismo, esta conformação é que faz o operário indiano, talvez, o mais cordato do mundo.
“E nóis, como é que nóis fica com tudo isso?” será uma pergunta fatal de um sapateiro de Franca. Se “nóis fica sentado esperando as coisas acontecer", o futuro não é nada promissor. Mas nos temos muita munição e estratégias para aplicar e nos defender. Todo o conhecimento acumulado durante os cem anos da indústria de calçados de Franca não será perdido da noite para o dia. Uma força de trabalho, bem treinada, que hoje produz um calçado do primeiro mundo, uma legião de jovens que planejam seu futuro neste ramo industrial tem um potencial enorme de trabalho, de conhecimento e de idéias.
Por onde começar? Definir a nossa vocação e adapta-la aos ditames do terceiro milênio, levando em conta as mudanças profundas ocorridas na informática, na comercialização e na logística. Quem apostar na produção em grande escala não irá longe.
A hora é de procurar nichos de mercado, fazer produtos diferenciados, de alto valor agregado, com flexibilidade para atender os ditames do mercado em questão de horas, uma distribuição expressa, ou através das lojas próprias, franqueadas, até com franquias parceiras ou pelo e-commerce. Tudo isso apoiado numa marca forte com presença no mercado, com trabalho perfeito de pesquisa de mercado e atendimento personalizado até o cliente final.
É uma tarefa bem grande que não será resolvida em questão de semanas ou meses, mas pode envolver alguns anos de trabalho concentrado. E já se perdeu tempo demais! O modo mineiro de pensar e agir, deixa ver como é que vai ficar, é infelizmente, uma sentença de morte.
Vou citar mais uma vez a célebre inscrição na lápide de um túmulo inglês: “Eu avisei que estava doente!”
Zdenek Pracuch
16/01/12