A (DES)HONESTIDADE DE FORNECEDORES.

Numa pequena indústria de calçados no interior de São Paulo, onde implantei o sistema de cálculo de consumo, acontecia um fato curioso. Os cortadores que recebiam o material rigorosamente bem calculado, cortavam dentro do previsto no material de um determinado cortume, mas invariavelmente davam prejuízo quando cortavam o couro de um outro cortume.

Os cortadores eram os mesmos, os modelos eram os mesmos, os cálculos eram os mesmos mas os resultados eram sempre negativos quando o couro vinha de outra procedência. – A conclusão era óbvia: o outro cortume não fornecia o que marcava como metragem nas peles. Bem, isso não é nenhuma novidade.

Os cortumes pouco sérios contam com o fato, de poucas fábricas possuírem máquinas de medir peles e marcam nas peles o que bem entendem. E quando interpelados vem com a desculpa folclórica “que o couro encolhe”. Por favor, vamos ser razoáveis! Por que o couro que é artigo bastante uniforme, encolhe só em determinados cortumes? E quando medido com rigor, com controles na hora de calibrar a máquina e medir, não encolhe?

Esta discussão vem de longa data. Participei de muitas delas, chamado a opinar e cheguei ao ponto de encomendar a norma ISO sobre a medição de peles. Para a minha grande surpresa a norma, bastante explícita só se referia ao condicionamento de peles e da mecânica e a calibragem das máquinas de medir. Na norma não há uma palavra sobre encolhimento, ou alguma tolerância para tanto. Ou seja, este problema não existe e o couro encolhe só em alguns cortumes no Brasil. E na Índia! Quando importávamos couros de búfalo da Índia para uma indústria de calçados de segurança, os primeiros containers vieram com diferença de até 3% da medição a menos. Depois da reclamação, as peles curiosamente pararam de encolher.

Até agora falamos somente sobre os couros, mas os outros fornecedores também podem ser pouco sérios. Pergunto: quantos de vocês pesam as latas de cola no recebimento? Quantos de vocês pesam as linhas? O peso do cone de plástico é pago como preço de linha? O material e rolos têm a metragem que a etiqueta acusa ou tem algumas dezenas de centímetros ou até metros a menos no comprimento? E o metro linear tem sempre na realidade os 1,40 m de largura esperados?

É triste que estamos convivendo com esta realidade. Mas do mesmo modo que a sociedade como um todo se revolta com aquilo o que ocorre nos altos escalões do governo e pede o império da moral e da ética, pela mesma razão os empresários não devem tolerar aquilo que não é um abuso mas sim um roubo declarado.

Posso lhes afirmar que, todos aqueles que reclamaram e provaram, que estavam sendo roubados, receberam de volta o que reclamaram. E num caso, numa fábrica mineira que produz mais de dez mil pares de calçados só de couro, por dia, os cortumes hoje mandam até um pouquinho mais, para o couro não “encolher” e não ter reclamações.

Nas universidades americanas, nas faculdades de administração existe hoje uma cadeira de Ética nos Negócios. Enquanto nossas universidades ainda não adotarem esta prática, vamos começar a impor a ética nos negócios no portão da entrada dos nossos almoxarifados.

Zdenek Pracuch