DESINFORMAÇÃO

O que é surpreendente e ao mesmo tempo assustador, é o grau de desinformação dos empresários, infelizmente, não só do ramo calçadista. Embora vivendo em um século onde estamos virtualmente sufocados com noticiários, onde as notícias circulam com velocidade nunca antes vista, a desinformação campeia. Será que a causa, pelo menos parcialmente, pode ser atribuída às quantidades enormes de notícias a serem absorvidas e digeridas?

Pode ser, mas no caso dos empresários, a desinformação poderia ser equiparada ao comandante do avião, que voa num nevoeiro sem apoio dos instrumentos. O resultado, mui provavelmente será a notícia na primeira edição do Jornal Nacional. Não acredito que seja caso de “analfabetismo funcional” onde a pessoa lê mas não tem condições de entender o conteúdo.

Fico pasmado, quando comento com alguns empresários, sobre a situação econômica global, ou sobre os últimos levantamentos da economia nacional, pelo completo desconhecimento dos fatos e dos números vitais para orientação segura dos negócios. Os números da balança comercial, os números sobre a queda de exportação dos manufaturados e de semi-manufaturados e o aumento dos números da exportação de commodities – minérios, soja, açúcar, carne etc. – indicam o desequilíbrio na balança comercial com reflexos sobre a cotação do dólar, facilidade para importar e dificuldade para exportar.

O mercado nacional vive uma expansão virtual, financiada pelo crédito fácil, como há tempos não se via. Mas alguém prestou atenção sobre a informação da Serasa Experian sobre os índices de inadimplência que saltaram de 35,3 % em Setembro de 2000 para 113,7 % em Outubro de 2010? Alguém prestou atenção na estimativa da Confederação Nacional do Comércio, que o número de famílias endividadas no Brasil já passa de 8 milhões? (Seleções de Dezembro 2010).

Será que todos são vítimas dos marqueteiros eleitorais, que nos convenciam que vivemos numa ilha de prosperidade e que os males que estão vitimando Estados Unidos, Europa e começando frear a China foram banidos para sempre graças a genial atuação do nosso ex-grande líder? Não é isso que os números mostram e o que os economistas sérios e não comprometidos comentam. As dívidas têm que ser pagas e o exemplo da Argentina, que pensava diferente está aqui para qualquer um ver.

Interpretação dos dados acima é essencial para a elaboração de estratégias de empresas para este ano e para os anos vindouros. Não é tarefa fácil, mas ela se torna impossível, se os dados não forem procurados ou se não forem levados na devida conta.

O novo termo tão usado e abusado “desindustrialização” está estreitamente vinculado ao que apontei acima, principalmente, no que se refere à questão cambial.. Uma recente coluna minha com título “Lição de Portugal” leia aqui, deveria servir de memento aos empresários de calçados brasileiros. A aula que os empresários de Nova Serrana receberam em Fermo na Itália, quando foram ver como os italianos fazem o calçado esportivo deles e descobriram que não fazem mais é sintomática para aquilo o que quero dizer com estas linhas.

Sei, que todo mundo está preocupado com a evolução da situação tanto na fabricação quanto na comercialização do calçado. Enormes interesses econômicos e pessoais estão envolvidos e dependem do sucesso ou insucesso dos empreendimentos. Mas o que é necessário compreender, que temos que analisar e interpretar os sinais de tempos, as notícias sobre a economia global, nacional e especificamente sobre a evolução da produção de bens de consumo, que são a “nossa praia”.

E, com subsídio destas informações e com a devida interpretação, adotar medidas preventivas, definir estratégias, nichos de produtos, áreas de comercialização, fixação de marcas e todo o universo que hoje engloba o ato de empreender. Questões tecnológicas, métodos de produtividade, mudanças no estrato social, mudanças na comercialização para o atendimento de novas demandas de clientes – quanto trabalho!

Não é trabalho para amadores. É um trabalho de fôlego, que necessita de pessoas de visão, de conhecimentos e muitíssimo bem informadas. É natural que estas informações não são fornecidas pelos boletins de bancos, nem trazidas pelos representantes comerciais. Muito menos ainda, não fazem parte de telejornais, ou da imprensa diária. Estes veículos trazem informações, sim, mas destas informações tem que ser montado um mosaico, para termos um quadro geral, que nos pode orientar para empreender, com pelo menos alguma segurança, já que a única situação constante é a mudança permanente.

No século vinte e um, onde posso estar conectado com o mundo inteiro, receber as últimas notícias, me beneficiar com comentários de pessoas bem informadas, sem sair do conforto da minha sala de estar, de chinelo e pijama, não há desculpa para não estar bem informado ou não ter acesso às informações com que possa formar opinião e traçar o programa de ação.

Não propago o chamado de uma consultoria para definições estratégicas, nem para os exercícios de futurologia. Primeiro - ninguém conhece a sua empresa como Você. E, segundo, existem duas classes de consultorias: a que já foi dispensada e a que ainda não o foi.

Volto à parábola escrita mais acima. Comandar um avião – empresa – não é tarefa fácil, não é tarefa para qualquer um. Mas voar, sem visibilidade e sem instrumentos – ou seja informações adequadas, precisas e atualizadas – é um desastre inevitável.

Zdenek Pracuch
28/02/11