DECÁLOGO DO FRACASSO
Os colunistas que o digam. A data do fechamento da edição se aproxima e cadê o assunto para a coluna? Meu Deus, sobre o que vou escrever, por onde andam as idéias? Já li colunas deliciosas do João Ubaldo Ribeiro, do Wilson Martins de saudosa memória, do Fernando Sabino sobre o síndrome do papel em branco e outras tantas.
Não que eu sofresse demais por este motivo. Os colegas sapateiros aprontam tantas, que sempre há um bom assunto em pauta, mas, de vez em quando, no meio de uma conversa despretensiosa e amiga surge um assunto que merece uma crônica.
Foi o que aconteceu na sexta-feira passada num encontro, até fortuito, com meu amigo Luizinho Faleiros, quando confessou que anda há tempos com um assunto na mente, mas que por vários motivos ainda não colocou no papel. Até por que não tem por hábito escrever. Queria escrever sobre “Os dez motivos para fechar a sua, ou uma, empresa!” e, generosamente, me ofereceu o assunto para explorar.
Não pensei duas vezes. Eis um assunto, sobre o qual, em escritas dispersas, já discorri tantas vezes, mas nunca numa forma resumida, onde em poucas palavras poderia ser apontado o rosário de erros e pecados, que na vida empresarial tem desfecho fatal.
Obrigado, Luizinho, depois me diz, se me desincumbi da sua tarefa para a sua satisfação. – Então vamos lá:
1/ Nunca planeje nada. Viva do dia a dia porque cada dia vai lhe trazer novas e variadas surpresas e com isso a vida ganha um colorido nunca antes suspeitado.
2/ Nunca mude nada daquilo que alguma vez já deu certo e trouxe resultado. Para que ariscar com idéias novas? Deixe outros tomar a dianteira e só depois corra atrás se viu que deu resultado.
3/ Não se preocupe com criação ou acompanhamento das tendências do mercado ou da moda. Quinze dias antes das Feiras é tempo suficiente para novos lançamentos dos quais, de qualquer modo, só vai aproveitar uns míseros cinco por cento.
4/ Procure cercar se de colaboradores cordatos que nunca vão discordar das suas decisões e com esta atitude vão contribuir para um clima de harmonia e cordialidade dentro da sua empresa. Para que discutir, se no fim terá que ser feito aquilo o que Você determinar?
5/ Passe ao largo daqueles bobocas que querem lhe mostrar como deve gerir a sua empresa. Empresa é sua e só Você, todo poderoso, sabe como deve ser dirigida. Essas bobagens sobre o cálculo de custo apresentado pelo Peter Drucker, planejamento financeiro ou sobre o acompanhamento do capital de giro, as discussões sobre o lucro real ou presumido – tudo é tempo perdido. Seu negócio é fazer calçado.
6/ Cálculo de consumo? Que bobagem é essa? Meto a mão na lata de lixo e vejo direitinho como os cortadores tratam o meu material! Ninguém vai me passar para trás! Você, amigo sapateiro, está certo – esses caras nem sabem ligar o balancim e querem ensinar latim ao vigário! Paralelogramo – que é isso? Olha os grandes, tinham tudo isso e onde estão? E olha eu aqui, vivinho da silva!
7/ Contabilidade de resultados, para quê? Olha lá fora! Tá vendo aquela Mitsibushi (atenção,não é erro de escrita, ele fala assim mesmo!) – aquilo é que é o resultado. Eu não preciso de papel para saber a quantas ando!
8/ Não se preocupe com marketing, com departamento de vendas, com comercialização de terceiro milênio. Ninguém vai lhe ensinar nada! Não foi Você que pegava aos sábados aquele Fordeco que caía aos pedaços e ia vender as botinas que produzia durante a semana? E alguém vai querer lhe ensinar a vender? Ora, ora!
9/ Desde o começo Você ouviu falar e apreendeu, que onde se ganha mais é na compra. Vá em frente e procure sempre o material mais barato, dos fornecedores que não tem toda essa fama de qualidade, mas cujo preço é imbatível. Se o calçado desmancha na primeira chuva? E Você com isso? Cliente não procurou o preço baixo? E Você forneceu o preço mais baixo possível!
10/ Não se preocupe com Notas Eletrônicas, com cruzamento dos dados dos fornecedores e compradores, processados em super-computadores. Você sabe que a sonegação sempre existiu e existirá, para cada nova invenção do fisco seguir-se-á a contra-invenção dos sonegadores. Esse filme Você já viu tantas vezes!
O assunto não se esgota neste decálogo. De longe não. Mas para o nosso amigo sapateiro não adianta falar sobre os problemas da transição, da transição de empresa pequena para a empresa grande, da transição de gerações, das mudanças na comercialização por influência da globalização, do deslocamento do centro da gravidade do ocidente para o oriente, porque ele vai achar que isso é um assunto acadêmico demais e ele é um homem firmemente plantado no chão – pão pão, queijo queijo.
Se alguém quiser vestir a carapuça, sirva-se, mas o essencial, no momento, é que a coluna está escrita.
Zdenek Pracuch