CUSTOS, CUSTOS, CUSTOS ...
O que era de esperar já está acontecendo. O comércio está esfriando, pressão sobre os preços está crescendo e os empresários estão ficando sem saber como agir e o que mais cortar para diminuir os custos. Infelizmente, os anos de bonança sempre fazem adormecer as boas intenções para racionalização dos processos, combates aos desperdícios, investimento em treinamentos que resultariam em maior produtividade, enfim, as medidas necessárias, para continuar competitivo no mercado com lucratividade que permita a continuidade do negócio.
O pior neste quadro desanimador, que está se desenhando, é que a maior parte dos donos das empresas nem sabe calcular o custo real do seu produto e nem tem ferramenta como, por exemplo, a contabilidade de resultados que poderia, semanalmente, dizer com absoluta precisão o que a empresa ganhou (ou perdeu) na semana anterior, para a tomada de ação corretiva imediata.
A alegação que este filme já foi visto, periodicamente, muitas vezes, hoje não procede mais. Porque nos tempos idos, os altos e baixos cíclicos do comércio e da economia não traziam o componente letal, hoje representado pela concorrência asiática. Sobre esta não temos nenhuma influencia e esperar que o governo tomará providencias para defender a indústria de calçados é sonhar de olhos abertos. Os interesses em jogo são grandes demais para ameaçá-los com algumas medidas de proteção, logo de quem? Da indústria de calçados? Não me façam rir!
A despeito deste cenário pouco animador ainda há muita coisa, mas muita coisa mesmo, que os industriais podem fazer em defesa das suas empresas para permanecerem competitivas e atuantes no mercado. Mas para acontecer isso, terá que acontecer uma mudança radical na maneira de gerir as empresas calçadistas, de abandonar os velhos hábitos, hoje tão obsoletos como lampião a querosene ou telefone a manivela.
“Sempre fizemos assim …” ou “Sempre deu certo assim …” são frases que ficarão bem como epitáfio nas pedras tumulares. Sobre granito preto, em ouro, até que ficam bem. Mas não ficam bem na boca de um empresário, que faz questão de comprar carro do ano, mas que conduz seu negócio com métodos da primeira metade do século passado. Se estivesse em jogo só o bem estar do dono da empresa, tudo bem. Colherá o que plantou. Mas o que dizer sobre as dezenas ou centenas de pessoas que se fiaram na liderança dele, colaboram com ele, sacrificam os melhores anos de vida pela empresa e tem pela frente um futuro cheio de incertezas e de dificuldades, caso a gestão continue com a mesma orientação retrasada.
Vivi momento de satisfação esta semana, meu ego se levantou um pouquinho mais, quando um empresário de Nova Serrana de modo espontâneo me pediu desculpas, por ter duvidado quando no ano passado descrevi o provável cenário do ano 2011. Nas palavras dele, estava tão eufórico com os resultados do ano que, considerava meu aviso, a minha ponderação, uma bobagem mas sem me dizer nada. “E não é que está acontecendo tudo o que Você previu?”
Não existe bola de cristal. Não existe uma profecia, uma previsão cem por cento. O que existe é análise de fatores, formadores de situações, uma observação desapaixonada, que serve para indicar com alguma segurança o rumo que as situações vão tomar. No caso presente a análise é simples. Quais são as armas com que podemos nos defender ou combater as importações, o tsunami, a cada dia mais violento?
Se o combate for baseado só no preço, então, esta batalha já perdemos. Contra taxação exorbitante, contra infra-estrutura caindo aos pedaços, contra legislação trabalhista obsoleta e desatualizada e que dificilmente será mudada, nada podemos fazer. Podemos lutar e ganhar combatendo com as armas que nos restam: criatividade e originalidade, qualidade a toda prova e com um serviço, como entregas expressas e flexibilidade no acompanhamento da moda, das exigências do mercado, em questão de horas, nem em questão de dias! Sem falar no combate sem trégua contra desperdícios de toda ordem junto com vigilância sobre custos, despesas e custos, despesas e custos, despesas e custos ad infinitum, assim como o fazem os orientais!
Estas são as nossas armas. Mas para isto precisaremos a começar nos preparar desde já! Desde ontem. Mudar a estrutura de produção para um giro de mercadoria ultra-rápido, hoje inimaginável, mas exeqüível, como o mostra exemplo de algumas poucas fábricas que já trabalham no ritmo do terceiro milênio, onde produzimos calçados em questão de horas e não de dias ou semanas! Estudar, analisar e pesquisar as tendências da moda, da psique do mercado. Copiar da Internet é tempo perdido. O que está na Internet já está nas lojas. E se quero fazer o que já está na loja já estou chegando tarde.
Reposição das mercadorias vendidas via Sedex, ou quem sabe, surgirá um meio ainda mais rápido de repor o que foi vendido. - Tudo isso está para vir, ou até já está entre nos. É notório e sabido que, a melhor idéia não tem valor nenhum se não for seguida de ação. Infelizmente na indústria de calçados, na sua grande maioria, a ação deve esperar para depois da Francal, depois do Natal, porque agora estamos muito ocupados, depois esperaremos Couromoda, Minas Trend, Dia das Mães, dos Namorados, dos Pais e mais um ano irá embora num dolce far niente. Mas vamos esperar que a Abicalçados consiga algo em Brasília para compensar a nossa imobilidade.
Porque não começar a fazer algo já? A começar pelos custos. Racionalizar modelagem, parar de remontar três materiais um em cima do outro, estudar a racionalização de operações, parar com a colagem no pesponto, em noventa por cento dos casos desnecessária, re-estudar a movimentação de cargas dentro da fábrica – há tantos custos inúteis embutidos no produto, que não dá para acreditar. E não é só na produção. Algum dos empresários que lêem esta coluna já fez análise quanto tempo leva o processamento de um pedido pela administração? Isto também pesa nos custos. - Divirtam se!
Zdenek Pracuch
13/06/11