CRONOANALISTA ZANGADO
Há algum tempo escrevi uma coluna - A importância (ou não) da cronoanálise, leia aqui - sobre a cronoanálise, onde externei a opinião, de que a cronoanálise representa um luxo desnecessário para a indústria de calçados e que uma cronometragem de orientação, simples, preenche plenamente as necessidades. A cronoanálise entretanto é vital na metalurgia, principalmente onde operam máquinas com comando numérico.
Recebi um e-mail, muito educado e repleto de considerações técnicas, como podem julgar por si mesmo pelos dizeres abaixo. Pedi autorização ao missivista para sua publicação aqui, com citação do nome do autor; a autorização me foi concedida e aí está o teor do e-mail recebido com transcrição fiel obedecendo pontuação, ortografia e gramática:
Boa tarde !!!!!!!!!
Meu nome é Fernando e sou cronoanalista já fazem 16 anos os quais dediquei 13 no setor calçadista, e gostaria através deste, mostrar minha indignação com o senhor (o qual me parece muito inteligente) que escreveu este artigo sobre cronoanálise, pois não consigo imaginar uma pessoa que viveu tanto tempo o mundo sapato, sabendo que hoje se ganha nos centavos, dizer que a cronoanálise e os cronoanalistas, não tem valor, é inaceitável que uma pessoa do gabarito deste senhor diga tamanha burrice, pois bem sabe ele que não fosse cronoanálise através de estudos de métodos e processos, organizar os setores não só de pesponto, as fábricas se tornariam uma bagunça pois na grande maioria das empresas os cargos de chefias e até mesmo supervisores e gerentes não possuem técnicas alguma, podem até dizer que sabem, mas não sabem porquê e como é feito. A cronoanálise não é somente usar o tempo cronometrado, é também sugere implantar metodologia e equipamentos, máquinas que façam com que se tenha mais produtividade com menos desgaste dos seus colaboradores, o fato de os pedidos terem diminuído de tamanho (quantidade de pares) é o maior motivo para que as fábricas invistam sim na cronoanálise, pois se não se consegue aproveitar aquele estudo naquele momento, com certeza se aplicará logo mais, pois os modelos giram muito rápidos, ao mesmo tempo eles se parecem pelo menos em parte, porisso se existe um setor de tempos e métodos na empresa, este sim vai identificar possíveis problemas já no planejamento de modelos, pois os modelos não são jogados ao vento, ao menos em indústrias organizadas, as quais trabalhei, desde a modelagem o cronoanalista acompanha o modelo passando por reuniões técnicas e testes até a hora em que o modelo se inicia no pesponto e se uma empresa tiver por exemplo 5 linhas de pesponto e para cada linha dedicar um cronoanálista, aí sim o trabalho será mais bem aproveitado, e o investimento que se faz nesta área se pagará tranquilamente, claro que estou falando de profissionais qualificados, pois existem muitas pessoas que fazem um “cursinho” e se dizem cronoanálista, pois um cronoanálista não se faz do dia pra noite, pra ser bom cara tem que ter chão da fábrica assim como um especialista em CIA’s de exportação como o senhor que escreveu este artigo, que me indignou tanto, ele mesmo não se tornou esse cara tão bom em pouco tempo, acho que os setores de rh das empresas devem tomar este cuidado na hora de contratar um profissional da área de cronoanálise, pois estas recrutadoras que estudaram tanto para não errar na hora da seleção, possuem técnicas para esta seleção seja a mais certa possível (pois são pressionadas por fecharem em determinado R$ que é um insulto pra um cronoanálista) ou até mesmo contratar empresas especializadas em seleção de profissionais técnicos como modelistas e cronoanalistas as quais existem na cidade onde resido (Novo Hamburgo) pois pessoas que julgam diferente, não merecem ter título de especialista que tem, e espero que esta indignação não fique somente na caixa de entrada deste senhor, pois é uma grande oportunidade de refletir sobre o assunto.
Sds.
Fernando Pretto Nunes
Cronoanalista – Metalúrgica Daniel Ltda.
A despeito da linguagem e da argumentação forte, continuo com meu mantra, de que a cronoanálise é um luxo caro e plenamente dispensável na indústria de calçados e que uma simples cronometragem de orientação é suficiente para fornecer o conhecimento e a orientação sobre as necessidades da produção e da produtividade. Cronoanálise é vital, é indispensável na metalurgia e sobre isso não existe nenhuma dúvida. Mas, pode custar caro confundir a cronoanálise com a engenharia de produção.
Não tenho coragem propor a um empresário um cronoanalista para cada linha de pesponto, até cinco, como sugere o missivista! Na minha idade não tenho força física para suportar uma agressão da qual, certamente, seria eu a vítima após uma sugestão destas. Aliás, temos em Franca uma firma, mundialmente conhecida Calçados Samello, que nos seus tempos de glória tinha DEZ pessoas no seu departamento de cronometragem. Dispensa comentários. Numa outra firma de Franca vejo o cronoanalista (sim, senhor, lá existe) preocupado com número de batidas de um balancim de ponte, mas completamente despreocupado com a economia do material! Já ouviram falar da relação custo – benefício?
Vou confirmar mais uma vez a minha convicção e experiência: a cronoanálise na indústria de calçados se justifica, quando é bem feita, no caso de pagamento de mão-de-obra por peça, ou por tarefa, como se diz em São Paulo. A cronometragem de orientação nos diz se o tempo da operação é compatível com a velocidade do transportador. É só isto o que precisamos saber. Porque hoje, a indústria que não trabalha com transportadores em todos os setores joga dinheiro fora e perde a competitividade. – Por falar em cronometragem – não fazem idéia em quantas indústrias quando peço cronômetro recebo como resposta: para que? Para evitar mal estar já sempre carrego o meu.
De qualquer modo por mais que cronometre para descobrir que a costureira até poderia produzir mais, ela só vai produzir o que o transportador irá trazer ao posto de trabalho dela. Há casos onde temos que nos curvar às condições de trabalho olhando o conjunto todo. Porque os automóveis que podem andar a 240 km por hora têm que manter a velocidade de 110 km/h na maior parte das rodovias?
Quero só comentar e acho curioso, que o próprio missivista hoje aplica os seus conhecimentos na metalurgia e não mais na indústria de calçados. Por que será? – Entendo a defesa corporativista dos cronoanalistas. Afinal o “pão nosso de cada dia” está em jogo. Mas os custos de uma indústria devem conter somente as coisas úteis, aproveitáveis e indispensáveis. E a cronoanálise, na indústria de calçados, não se enquadra em nenhuma delas.
Zdenek Pracuch
10/01/11