QUE CRISE É ESSA ?

As notícias são contraditórias. Cheguei há alguns dias em Nova Serrana e procurei saber, como andam as coisas. As informações que recebi eram as mais contraditórias possíveis. Como estão as vendas? Muito boas, regulares, péssimas. Então, como de fato estão? – Como foi a Francal? Ótima, normal, um fracasso. Então, o que pensar?

Compilando os fatos, os números e a situação reinante em várias indústrias de expressão, posso afirmar, que as três situações acima descritas para cada pergunta são pertinentes. É um fato, que temos indústrias em situação boa no tocante aos pedidos e, também, temos indústrias que não sabem o que fazer, por falta absoluta de pedidos.

Qual é a razão desta situação? Sob análise fria, vários fatores estão contribuindo para esta situação. Tradicionalmente, o primeiro semestre está mais fraco em termos de venda. As Feiras estão cada vez menos feiras de vendas, e tornando se mais e mais feiras de relacionamento com o mercado. A presença dos importados está cada vez mais presente. A mesmice da modelagem, que já está cansando o público comprador pode ser verificada no expositor de cada representante. Falta de originalidade, tanto de desenho como de materiais usados está cada vez mais visível, principalmente em comparação com importados. A batalha pelo custo baixo compromete a qualidade, principalmente nos materiais usados.

Cada um destes fatores por si já é suficiente para dificultar as vendas. Imaginem a conjunção de vários deles ao mesmo tempo.

É difícil de aceitar a desculpa que o comércio está fraco, que ninguém compra. Enquanto escrevo este artigo a Globo News está dizendo que a produção industrial cresceu nos últimos seis meses 6,4%. Claramente, não há como falar em crise. Em compensação o Estado de Minas publicou indicadores industriais do último trimestre e, de fato, a produção da indústria mineira de calçados caiu 9,8%.

Ou seja, temos crise na indústria de calçados. Indubitavelmente. Mas não é a situação econômica do país a causadora. Devemos procurar as causas na própria postura da indústria. Há um ano ou mais, venho alertando sobre a invasão oriental do nosso mercado, sacramentada pelo infeliz acordo do governo brasileiro com o governo chinês. O efeito chegou até com maior rapidez do que estava esperando. – Mas o mal já está feito.

Estive, e continuo a sugerir medidas de como se defender e fazer frente a esta ameaça muito séria á indústria brasileira de calçados. Mas parece, que quase ninguém está se preocupando ao ponto, de adotar medidas que possam proteger as indústrias e se tornarem competitivas.

Esta situação de "crise" não foi criada nestes últimos meses. Esta crise é resultado de negligências acumuladas durante anos e em muitos casos, desde a fundação das empresas locais. – Quem se preocupou seriamente com desperdícios que ocorrem nas nossas indústrias? Quem se preocupou seriamente com a qualidade dos produtos? Quem se preocupou com a qualidade de material que estava aplicando no produto? – Quanto mais barato melhor, não é? Mas este barato custava caro para o consumidor. Será que ele não está se vingando agora, simplesmente não comprando mais?

Quem montou um sistema, uma organização de vendas? Quem, quem, quem? Quem visitava periodicamente seus clientes, manteve contato pessoal, conversava com balconistas para saber por que NÃO venderam o meu produto? Quem fez, quem faz isso? E querem falar em crise? Temos crise, sim, mas é crise de boa administração, de visão empresarial, de coragem de ousar!

A seleção darwiniana está em pleno curso. Só os mais aptos, os melhor preparados sobreviverão. Não tenho pena daqueles que vão ficar pelo caminho. Tenho pena daqueles que dependem dos que não eram capazes conduzir os negócios e negligenciaram de se preparar para os tempos difíceis, que chegaram para ficar. Tenho pena das famílias, onde o chefe vai chegar em casa com cara triste: A fábrica fechou!

Hoje já temos entre nós fábricas que já fecharam mas ainda não se deram conta disso. Poderia servir de consolo para mim, que avisei em tempo, que alertei e tentei mostrar o que fazer. Mas, infelizmente, a tristeza de ver toda uma comunidade caminhar para um futuro incerto, supera qualquer sentimento do dever cumprido, de ter tentado abrir os olhos daqueles que não quiseram ver.

Zdenek Pracuch