CONSULTORIAS

Durante as minhas viagens pelo Brasil para atendimento das indústrias de calçados encontro cada vez mais consultores trabalhando nas indústrias de médio e grande porte. O fenômeno em si é auspicioso, porque demonstra que os empresários estão cientes da fragilidade das estruturas das empresas e tentam adaptar os seus métodos de gestão aos requerimentos do terceiro milênio.

Mas, como em qualquer atividade humana, ao lado das pessoas sérias, confiáveis, também existem os aproveitadores que vendem gato por lebre. E, para um empresário, que é movido pela ânsia de melhorar o desempenho da empresa, mas que tem pouca ou nenhuma experiência sobre as tarefas de boa administração ou de gestão, como evitar para não cair na mão dos aproveitadores do boom da consultoria?

O primeiro sinal de alerta deve ser a insistência em fazer um contrato de três, quatro ou seis meses, quando não é um de um ano de duração, para a prestação de serviço. O infeliz empresário, para ser convencido da necessidade e da oportunidade de melhorar o desempenho da sua empresa é afogado em argumentos, numa língua para ele estranha, mas que é pontilhada de termos em “economês” e “academês”, quando não em “gauchês”. E o corolário é sempre o mesmo: - a partir de agora, o senhor irá ver como vamos melhorar a lucratividade, os controles e o desempenho geral! - É lógico, quem não deseja atingir isso?

Gente séria não faz promessas sem substancia. Gente séria não promete coisas que não tem como cumprir, muito menos, quando mal atravessou o portão da fábrica e pouco sabe da situação que vai encontrar. Pelo que se vê, para estas pessoas, o importante é assinar o contrato. Para o resto vai se dar um jeito.

Tenho em mãos a cópia da proposta de trabalho de uma firma de consultoria, que tem em seu currículo, a título de apresentação, nada menos de doze firmas calçadistas de médio e grande porte. Impressionante. Mais impressionante ainda é a proposta de trabalho a ser executado. Está composta de 214 pontos. Sim, contados e conferidos, 214 pontos sujeitos ao estudo e à melhora.

Sejamos técnicos frios, calculistas e realistas. Num contrato de seis meses, teremos 125 dias úteis se formos contar de julho a dezembro de 2010. Na prática isso quer dizer, que deverão ser realizadas 1,71 proposições por dia, para dar conta do plano de trabalho. E não será pouca coisa, como por exemplo – analisar toda documentação referente a normas, organograma, descrições já existentes, ou – implantar reunião de planejamento de temporadas, modelos, preços, cotas, etc., ou – procedimentar (sic) etapas críticas do desenvolvimento. Mas há também tarefas rápidas como – colocar a faixa com o nome do projeto na entrada da fábrica.

Numa outra indústria encontrei uma situação, onde os consultores prepararam um plano para melhorar a produtividade e quando foram convidados para implantá-lo ao nível do chão da fábrica, disseram que isso não fazia parte do negócio. Esta tarefa cabia ao gerente da produção, a eles cabia o projeto tão somente.

Há certos vetores, notórios na indústria de calçados brasileira. O vetor número um é a carência do ensino técnico aos supervisores e líderes de grupos. Nem é bom falar de simples operários, que nunca tiveram uma aula sequer de ensino técnico. Não é fácil lidar com pessoal despreparado. Isto no nível da fábrica. Mas no nível administrativo e nas diretorias a situação é a mesma. Nossos empresários são uma categoria especial de heróis. Quantos deles vieram das origens das mais humildes e alcançaram riqueza e a fama. Mas, no 3º milênio a coragem e arrojo por si só não bastam mais. Estamos cercados de novas tecnologias, de novos métodos de gestão, de competidores afinados e as fronteiras caíram. O Mundo tornou se global.

Este é o vetor número dois. A sobretaxa contra importação de calçados da China teve efeitos muito limitados, como se pode ver. A importação continua. Não cabe perguntar como. Mas o fato é que, está entrando calçado de origens que nunca vendiam nada para o Brasil e se tornaram, de uma hora para outra grandes exportadores. – Só Deus sabe como vamos ficar nesta competição com nossa tributação, legislação trabalhista com 70 anos de idade e o famoso “custo Brasil”.

Neste cenário é lógico, que os empresários afinados com tempos modernos, procuram ajuda de quem se oferece a ajudar. Mas uma boa dose de bom senso é necessária. Nunca queiram consertar a sua empresa em seis meses, em tudo aquilo que ficou atrasado por dezenas de anos! Escolham bem, com calma, os consultores que irão bater na sua porta, não abram muitas frentes ao mesmo tempo, identifiquem os pontos mais críticos e uma vez estes corrigidos, partam para resolver os outros.

Ao lado dos aproveitadores e picaretas declarados, há muita gente séria, que pode ajudar de fato na solução dos problemas mais complexos e que exigem muita experiência e conhecimento. Como disse uma vez o consultor-sênior Euvaldo Lodi: vem uma van com a equipe de consultores, que mais parece um ônibus escolar!

Por essas e por outras, meu cartão de visita que me definia como consultor, agora leva a palavra sapateiro. Com muita honra.

Zdenek Pracuch
29/11/10