OS CONCORRENTES ESTÃO SE ARMANDO

No artigo Disputa entre gigantes do calçado, falei da ofensiva da Índia no sentido de preparar os quadros tecnicamente qualificados para comandar a indústria de calçados naquele país. Hoje, a notícia do mesmo calibre, vem do outro gigante asiático – a China. Quem conhece a seriedade e concentração que os asiáticos aplicam quando determinam abordar algum assunto, pode avaliar o que estas notícias representam para indústrias de calçados dos países cuja índole é viver de improvisação, do dia-a-dia, porque o “futuro ao Deus pertence”.

A indústria chinesa cresceu e conquistou os mercados graças aos produtos baratos, feitos sem grande aprimoramento técnico, de design e de qualidade inferior. Mas a situação dos mercados nunca foi estática. A dinâmica dos mercados exige um aperfeiçoamento constante, os concorrentes forçam a competição e o resultado é um crescimento de exigências, que até pouco tempo atrás podiam ser ignoradas ou não levadas em grande conta.

O pronunciamento do presidente da Associação de Industrias de Calçados de Jinjiang, senhor Ding Zhizong é sintomático: “Contra o pano de fundo da globalização, o desenvolvimento da indústria chinesa de calçados já entrou numa nova fase de avanço tecnológico. Os exportadores chineses encontravam toda sorte de barreiras nos seus esforços de penetração lá fora. Ou seja, se a indústria de Jinjiang quiser se fortalecer, deverá introduzir mais ciência, melhorar o conteúdo técnico dos seus produtos e perseguir mais desenvolvimento orientado para os benefícios de qualidade, suportado pelas novas tecnologias.”

Descontando o discurso oficial, o que isso representa na prática? O vice-presidente da agência governamental para promoção da exportação de calçados da China, senhor Yan Huai Dao, durante a visita em setembro à GDS em Düsseldorf na Alemanha, deu a conhecer alguns detalhes sobre a ação em prol da melhoria da qualidade e, por conseqüente, da imagem dos calçados chineses. “Devemos ter normas para tudo que fazemos”, declarou. “Portanto nada mais natural que queiramos ter normas para o calçado de couro que produzimos.”.

As novas normas chinesas não constituem novidade em si: resistência à abrasão, resistência à flexão, resistência à flexão em baixas temperaturas na área da gáspea, resistência da colagem (por sinal, pelos dados apresentados – bastante rigorosa), dureza das unisolas, resistência à flexão do material para palmilhas, bem, normas que cobrem o universo da produção de calçados. – A novidade é, que estas normas devem ser aplicadas a todo calçado de couro exportado pela China.

A Norma QB/T 1002-2005 que entrou em vigor, demonstra, segundo o senhor Yan Huai Dao a seriedade com que o governo central encara a importância da indústria de calçados. “Em outros paises os governos não impõe normas para a indústria de calçados. São associações de industriais ou algumas entidades que assim o fazem. Por isso podem ver com que seriedade o governo chinês encara o assunto.” .

A endêmica corrupção chinesa, que é até mais séria que a nossa, imaginem, talvez irá atenuar um pouco o rigor da aplicação da norma na prática. Mas o que deve ser analisado, é o interesse do governo até sobre a questão da qualidade e da ameaça da perda de imagem e do prestígio que isso poderia causar aos produtos da China.

A única vez, que o governo brasileiro se preocupou com este aspecto, foi quando Brasil começou exportar em quantidades para USA, e tivemos problemas sérios com o descolamento das solas. Foi no governo Geisel e o chefe da Secretaria da Tecnologia subordinada a Casa Civil foi o Dr. José Valter Bauptista Vidal, o qual seriamente preocupado com o problema, autorizou, o então, Centro de Tecnologia de Couro e Calçados na Faculdade Pestalozzi de Ciências, Educação e Tecnologia, para proceder estudos para eliminação do problema. Com uma dotação suficiente o Centro trabalhou um ano para apresentar as conclusões. Depois de mais de 12.000 testes, foram elaboradas e publicadas as bases de uma colagem segura.

Os chineses, hoje, estão seguindo o mesmo caminho, o único caminho de sucesso garantido, o único caminho que leva a um futuro promissor. Tecnologia e qualidade, as duas baseadas na ciência aplicada. Infelizmente, num governo populista, o que não dá voto ou não melhora demagogia da imagem, não tem vez e com isso os chineses vão tomando nossos empregos. Falando em empregos, sabiam que em Dongguan na província de Guandong (Franca da China) trabalham mais de 1.700 brasileiros na sua absoluta maioria gaúchos, principalmente como designers, modelistas, acabadores de couro e outras ocupações especializadas. E já criaram as condições de vida brasileiras em torno deles, com creches, lojas, restaurante etc. – Vamos importar calçados e exportar os sapateiros?

Diariamente podemos acompanhar casos isolados de fábricas que entenderam os sinais dos tempos, a seriedade da ameaça oriental. Estão se armando, estão se preparando para enfrentar uma concorrência séria e implacável. Não esperam e, fazem muito bem, nenhuma ajuda do governo, que nunca vai brigar com os companheiros vermelhos que de vermelhos só tem a fachada, porque são mais capitalistas do que nos.

Os empresários de visão, em número reduzido, tentam se defender e se antecipar aos acontecimentos. A pergunta que fica no ar é: se até o governo chinês está se preocupando com a sua indústria de calçados, o que faz o nosso governo que teria muito maiores motivos para se preocupar? Já que o governo não fará nada, o que fazem as nossas entidades de classe? Das 512 escolas técnicas, cuja criação foi trombeteada como uma grande façanha governamental quantas atenderão a indústria de calçados? A avaliação e a premiação das indústrias que se destacam vai continuar por conta das revistas e jornais especializados? Entre os 37 ministérios não existe um cujo nome é Desenvolvimento? São os chineses que nos ensinarão a governar? Afinal com 6.000 anos de história estão doze vezes na nossa frente. Começo a duvidar que os podemos alcançar.


Zdenek Pracuch