DÁ PARA COMPETIR ?
Dediquei várias das últimas colunas ao assunto da competição internacional e a ameaça que paira sobre a indústria de calçados brasileira. São assuntos sérios, que se parecem muito com os “tsunamis” ultimamente tão comentados e temidos.
Podemos nos defender ou seremos varridos como os infelizes japoneses de Fukushima? As perspectivas não são muito animadoras. Proferi há alguns dias uma palestra em Nova Serrana e disse, com toda franqueza, que dentro de cinco a dez anos, das hoje mais ou menos oitocentas indústrias de calçados atuando na cidade, com alguma sorte sobreviverão, talvez, umas cem. Para a minha grande surpresa, a audiência concordou com esta tese.
Enfrentamos dois grandes inimigos nesta luta desigual que se aproxima. O primeiro deles reside na própria fragilidade do meio calçadista nacional, tirando alguns conglomerados grandes que, por sinal, já estão procurando o caminho do Oriente, a gestão das nossas empresas, de modo algum, está condizente com o terceiro milênio. O despreparo da enorme maioria dos nossos dirigentes é visível a cada passo dentro das indústrias. Não é sentido abertamente. Todos os ambientes aparentam serem iguais. Há pouquíssimas exceções de indústrias de mentalidade e métodos modernos e estas desaparecem no meio de tantas outras e até por auto-defesa não chamam a atenção para a atuação delas.
Os desperdícios nas indústrias tradicionais, de tudo que se pode imaginar, de materiais, de energia, de mão-de-obra, de tempo, simplesmente de tudo, beira o inacreditável. As indústrias estão sendo conduzidas com os mesmos métodos de criação, produção e de vendas como o eram na metade do século passado. Na indústria de calçados do Brasil, simplesmente o tempo parou na metade do século passado. Infelizmente, do outro lado do mundo ele continuou a caminhada.
O despreparo do nosso operariado é colossal. Junto com a legislação trabalhista obsoleta e excessivamente paternalista. Qual é o empresário que ainda não ouviu – me mande embora, pouco estou me lixando; para que há seguro desemprego? -. A escolaridade é caso de debate nacional, cada vez mais acalorado, onde o sistema educacional está seriamente questionado. Basta dizer que na Coréia do Sul, um professor do ensino fundamental ganha USD 4.000 quando em São Paulo não chega a R$ 2.000! No Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o PISA, Brasil ocupa o 53º lugar entre 65 países, atrás até do Chile, Uruguai e Colômbia. (O Estado de São Paulo 3.3.2011) É lógico que contra este estado de coisas o empresário está impotente.
O segundo grande inimigo da indústria nacional, não só a de calçados, é a estrutura da economia nacional que em nada ajuda a um empresário. E sobre este aspecto a voz bem alta do empresariado deveria ser ouvida. Sobre a carga fiscal que onera a folha de pagamento em 36,8%. A carga de obrigações é com recolhimento maior de INSS 20% do total e até este é muito questionável quando comparamos as aposentadorias dos funcionários públicos com a aposentadoria franciscana paga aos aposentados da iniciativa privada.
Mas por que a indústria deve contribuir compulsoriamente com 3% para acidentes de trabalho, com 2,5% de salário educação(?), 2,5% do sistema S (Senai, Sesi), 0,6% para Sebrae, 8% do FGTS (o único justificável) e 0,2% para Incra – para financiar a malandragem do MST e companheirada? Só em 2010 a contribuição para o sistema S representou 9,6 bilhões de reais! (O Estado de São Paulo 13.3.2011)
No ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, entre 139 países o Brasil ocupa uma vergonhosa 58º posição. No Brasil a abertura de uma empresa se completa em média em 138 dias. Na China em 32 dias. (Exame de 9.3.2011)
Com portos congestionados, infra-estrutura de estradas ou esburacadas ou com pedágios desmedidos – como competir? Embarque de um container em Santos custa US$ 1.700 e em Shanghai US$ 500 – como competir?
Há tempos foi calculado o custo de impostos embutidos num par de calçados em 39,6% do preço final. Não há voracidade fiscal grande demais? O que recebemos em troca? Falta de segurança, hospitais caindo aos pedaços, educação para lá de precária. Infra-estrutura podre. Já ouviram falar em “herança maldita”? Deve ser isso que herdamos do último governo.
Panorama que se desenha no horizonte econômico está longe de animador. Mas, em contrapartida, é altamente estimulador. Aos empresários da nova geração oferece uma oportunidade única de conduzirem as suas naus através das tempestades anunciadas com firmeza, no rumo certo. Numa tempestade veremos quem merece o título de comandante.
Temos uma enormidade de coisas que devemos e podemos consertar. Adotar gestão condizente com terceiro milênio, fazer todos os tipos de economias bem como evitar todos os tipos de desperdícios. Aprimorar os métodos de pesquisa de mercado, até hoje dependente das informações, sempre tendenciosas, dos representantes comerciais. Investir na criação e no desenvolvimento de produtos e abolir operações caras e inúteis. Analisar, testar e aplicar novos materiais, mais saudáveis, mais resistentes. Abraçar os novos métodos de comercialização condizentes com distribuição no terceiro milênio. Treinar os colaboradores e investir na gestão profissional, procurando os capazes não tanto entre amigos e parentes, mas no mercado de trabalho, com o apoio do parecer de psicólogos(as) com vivência de problemas industrias.
É muito a fazer? É sim. Mas levando se em conta que durante decênios nada de novo aconteceu, que os donos das empresas viviam numa auto-satisfação enganadora, que durante decênios eram “comprados” e agora tem que aprender a vender, a agredir o mercado, não com as cópias mal feitas, mas com originalidade, qualidade, conforto e saúde dos pés! É muita coisa ao mesmo tempo. Concordo. Mas é o preço a ser pago pela sobrevivência.
Zdenek Pracuch
06/06/11