CLARKS OF ENGLAND
O guru dos managers brasileiros, prof. Vicente Falconi cita no seu último livro O Verdadeiro Poder (livro - video) um consultor nipônico, que perdeu a tradicional paciência oriental, quando teve de repetir pela terceira vez: “As pessoas levam cinco anos para mudar!” Bem, nada de tão novo, quando consideramos que o Nicolo Macchiavelli que viveu de 1469 – 1527 já declarou (em tradução livre): “Deve ser levado em consideração, que nada é mais difícil de fazer, nem mais perigoso a tratar, como iniciar a nova ordem das coisas. Porque o reformador terá inimigo entre todos aqueles que lucram com a presente ordem e somente apoio morno daqueles que poderiam ser beneficiados com a nova ordem. Isso provém da natural incredulidade dos homens que não acreditam em nada de novo até que tenham experiência com a novidade.”
Ninguém vai negar que, se existe um povo respeitador do passado e das tradições seculares, são os britânicos. No entanto, vem do Reino Unido um exemplo de adaptação aos novos tempos, à nova ordem reinante no mundo globalizado calçadista. A famosa fábrica de calçados Clarks foi fundada em 1830 em Street, Somerset no sudoeste da Inglaterra, tornou-se a maior retalhista de calçados em 1930 e ganhou mercados internacionais nos fins dos anos 40 com as famosas “Desert Boots” desenvolvidas pelo Nathan Clark, tataraneto do fundador, após ter servido na Segunda Guerra mundial em Burma (hoje Mianmar) e comprado o protótipo num bazar. Descobriu o conforto, simplicidade e durabilidade do calçado feito de couro rusticamente acabado e solado de látex e transformou este calçado num Best-seller que, na sua feição original, está sendo vendido com sucesso até hoje.
Os veteranos da antiga Calçados Pestalozzi talvez, ainda hoje, lembram o Sidney-boot, que foi uma cópia inspirada na Desert Boot e exportada em grandes quantidades para Estados Unidos. – Mas por que estou escrevendo sobre a Clarks of England? Porque a postura e a gestão desta firma, pode servir de exemplo para muitos empresários, que até hoje confirmam a opinião do Nicolo Machiavelli. Para que mudar, se sempre fizemos assim e deu certo – pensam e agem de acordo. Pelo amor de Deus, não me venham com mudanças!
Há bastante tempo que venho afirmando que o centro da gravidade da indústria calçadista se deslocou do Ocidente para o Oriente. Inapelavelmente e definitivamente. E a Clarks entendeu isto perfeitamente. Fechou as seis fábricas que tinha na Inglaterra, a última em 2005 e transferiu a fabricação para os países do Oriente e da América Central. Criou uma diretoria de “global sourcing” e como eles próprios afirmam, deixou de ser uma empresa orientada para produção e passou a ser uma empresa orientada para consumidores e criadora dos estilos (e acessórios) próprios. Produz hoje em sete países e é suprida por mais de 50 curtumes. O esforço é orientado para passar de uma empresa internacional para ser genuinamente global.
Mas – atenção! Não estou pregando para imitar a política empresarial da Clarks. O que estou tentando mostrar é, que uma empresa com quase 200 anos de existência não tem medo de inovar, de mudar, quase que por completo, para ser capaz de acompanhar as mudanças impostas pela situação econômica do mercado global! É esta a lição que deveria nos fazer pensar. É puro darwinismo. Só os mais capazes, que sabem adaptar se às novas condições de vida, sobrevivem.
Não prego o fechamento das fabricas, como fez a Clarks. Absolutamente. O que prego é a adaptação à nova situação de manufatura e do mercado. Qual é a receita de sobrevivência? Os italianos, espanhóis e até dinamarqueses e suecos já o demonstram com sucesso. Alta qualidade (hoje a temos), originalidade e criatividade (já está despontando entre nos) e flexibilidade com serviço de atendimento perfeito (que ainda temos que aprender) é a receita de sobrevivência.
Depende exclusivamente da flexibilidade mental dos nossos empresários, visão e vontade de sobreviver e, principalmente a coragem de trilhar caminhos novos e usar métodos de produção e de comercialização do terceiro milênio. Serão poucos que terão coragem de agir neste sentido? Com quase certeza sim, porque também o eram poucos nos países acima citados. Mas aqueles que se adaptarem descobrirão que valeu a pena e que nunca ficaram tão prósperos, como depois de apreenderem a surfar na onda da atualidade.
Quando trabalhava numa firma sueca ouvi um ditado dos judeus, donos da firma. Diziam que o avô funda a empresa, o pai a conserva e o filho a fecha. É muito difícil uma empresa sobreviver três gerações. Pelo que podemos observar ao nosso redor, parece que na indústria de calçados a mortandade começa já com a segunda geração. A não ser que sejam empresas que se renovam constantemente e sabem viver dentro da sua época, como nos demonstra a Clarks fundada em 1830 ou a Bata fundada em 1894!
Zdenek Pracuch
04/06/12