CALÇADOS PARA A CHINA
O Caderno Regional de Ribeirão Preto do jornal Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre a iminente exportação de calçados a ser efetuada pela Calçados Sândalo de Franca para a China. Este fato me foi confirmado pela direção da firma, que aguarda conclusão de alguns detalhes para efetivação do negócio.
Este fato não deveria ser de modo algum surpreendente. O que deveria constituir surpresa é ter demorado tanto para uma firma francana abrir este mercado. Ano passado, nesta coluna estranhei o fato, de tantos empresários francanos terem visitado a China e nenhum deles ter levado amostras de calçados francanos, que hoje, pelo design e pela qualidade se igualam aos melhores produtos do mundo. E em comparação com calçado italiano de grandes griffes, oferecem a mesma qualidade e quase os mesmos materiais (pelo menos para os leigos não apresentariam nenhuma diferença), pelos preços que são um terço do preço que os italianos cobram. Mesmo assim, garantindo um ótimo retorno ao fabricante nacional.
A China foi atingida, do mesmo modo como o mundo inteiro pela recessão. Mas o imenso mercado interno e a aplicação da enorme poupança em obras de infra-estrutura, direcionando empregos para setores financiados pelas obras públicas, garantem um crescimento razoável. O PIB de dois dígitos está previsto para cair para algo em torno de 6 %, mas os seis por cento ainda está muito longe do PIB brasileiro que, talvez, nem atinja 1 (um) por cento!
O jornal O Estado de São Paulo de 3 de maio de 2009 traz a manchete que a “China salva as exportações brasileiras”. Com a alta de 61 % nas compras a China desbanca os Estados Unidos do primeiro lugar. Não é animador o fato, que 76,6 % das exportações brasileiras se compõe de 4 produtos – e todos eles commodities: Minério de ferro, Soja, Celulose e Petróleo.
Observadores internacionais julgam que o aumento de compras por parte da China deve-se ao fato de os chineses decidirem investir em estoques estratégicos, como prevenção contra qualquer surpresa que possa vir a reboque da recessão mundial.
O que nos deveria interessar é, de como entrar no mercado chinês, seguindo exemplo da Sândalo, para atingir a crescente classe média chinesa, hoje estimada em 200 milhões de pessoas, diretamente beneficiadas pela pujança econômica da última década. Imaginem, classe média maior que toda a população brasileira! - Hoje ocorre na China o mesmo fenômeno que ocorria no Brasil nos tempos das restrições de importações. A classe dos “novos ricos” chineses está fascinada com mercadorias vindas do Ocidente e está disposta a gastar com luxos, até há pouco tempo, desconhecidos ou inatingíveis.
O calçado brasileiro já atingiu maturidade e classe internacional. Numa reportagem do Comércio da Franca após a Francal do ano passado, foi citada minha opinião que, se alguém colocasse no calçado Sândalo uma chapinha metálica dizendo “Made in Italy”, ninguém duvidaria. Confirmo hoje a mesma opinião e o resultado das vendas é uma confirmação definitiva.
Este episodio encerra uma grande lição:
CRISE = RISCO + OPORTUNIDADE.
Se vamos ficar sentados esperando o que o governo vai fazer ou ver o que os outros farão para imitá-los correndo, nada acontecerá.
A maior parte do empresariado ainda não se deu conta, que a parte mais importante da vida da empresa está fora dela. O que acontece lá fora é que vai determinar o futuro de qualquer empresa. Andar dentro da empresa sim, é importante, mas o mais importante é o mercado e este está lá, além do horizonte!
Não é a toa que a gigante americana Procter & Gamble manda todos, disse todos, os altos executivos substituir duas vezes por ano por quinze dias, os vendedores que entram em férias, para ter contato direto com clientes a saber dos desejos e observações e quem sabe as reclamações sobre a atuação da firma. – Mas não podem entrar de salto alto: eu sou o vice-presidente de marketing, ou coisa semelhante. Apresentam-se como substitutos do Jerry ou do Jack que está de férias!
Podem imaginar, que visão do mercado trazem desta experiência? Como enriquecem a vida da empresa? Quantas idéias e sugestões podem nascer destes contatos? Justamente agora, quando a descoberta de nichos do mercado pode representar a sobrevivência da empresa? O método TBC nunca foi tão necessário de ser aplicado como o é hoje.
Vender calçado para China? Porque não? Se temos produto de classe mundial porque ter vergonha de oferecer? Muitas vezes não me sinto muito á vontade, quando tenho de avisar sobre assuntos não muito agradáveis, ou fazer previsões pessimistas. Mas agora, quando vejo que aquilo, que sugeri como parte da solução para o tsunami que se aproxima, poderia ser até a exportação para a China, fico feliz em ver aquilo que parecia uma profecia distante, graças ao arrojo dos empresários francanos estar se tornando realidade.
Zdenek Pracuch