JÁ EXPORTAMOS PARA A CHINA!

Segundo o noticiário da TV Clube de Ribeirão Preto, na noite de 30 de junho, a região de Ribeirão Preto está ativamente exportando para China. O município de Franca participou com nove firmas e destas cinco são do complexo coureiro-calçadista.

Notícia auspiciosa, não fosse o fato de as cinco firmas serem cortumes. Em outras palavras, estamos vendendo matéria prima aos nossos principais concorrentes, e mais ainda, beneficiados pelo preço, porque o imposto de exportação que incide sobre o couro é de somente SETE por cento.

Comparem com ICMS mais os PIS, Cofins, IOF e outras invenções, que as nossas fábricas têm de pagar e descobrirão que estamos de fato dando leite à cobra. Nada impede que este couro exportado pelos cortumes francanos para a China volte em forma de calçados de couro para fazer a concorrência que nem podemos chamar de desleal. Nossa carga tributária é três vezes maior que a chinesa. Contribuições sociais, dependendo de cálculo que aplicarmos, podem ser até cinco vezes superiores.

Como podemos competir? A ajuda tão esperada prometida pelo governo se resumiu simplesmente à abertura de crédito para investimento e para o capital de giro. Tratar um moribundo com chá de ervas? É isso que o senhor ministro da Fazenda está tentando fazer com a indústria de calçados. Coitado do empresário, que irá se arriscar a usar estes empréstimos. Só se tiver vocação suicida e quiser apressar o seu fim. Com a baixíssima lucratividade, que hoje reina na indústria de calçados não pagará este financiamento nunca!

Tem mais um ponto que deve ser observado. Embora não tenha tido acesso aos detalhes de operações de exportação dos cortumes de Franca para a China, não acredito que exportaram o couro de classificação inferior, o mesmo que estão impingindo ás fábricas locais. Couros estes que ocasionam um aproveitamento até 25% inferior causado pela má qualidade. Isto também reflete no custo do produto final, tornando ainda mais difícil a competição com produtos importados, ou aumentando o preço para o calçado a ser exportado.

As nossas dificuldades não passam despercebidas lá fora. O número de Junho/2007 do World Footwear traz comentário que a Azaléia, bem como a West Coast de Parobé, RS, estão estudando a possibilidade em transferir parte ou totalidade das suas produções para China ou Índia. A esta altura não há nada que possa surpreender. Os superávits na balança comercial estão sendo conseguidos às custas de exportação de commodities e a indústria de transformação, a geradora de empregos fica órfã. Ao governo, parece, que pouco importa o que está escondido na realidade atrás destes superávits mirabolantes.

O comentarista Celso Ming d'O Estado de São Paulo, desconhece a problematica detalhada da indústria de calçados. Mas o comentário na edição de 1º de julho define com precisão o que está causando esta situação de desespero reinante no meio calçadista.

Diz o Celso Ming: “Erva, ferro e fogo. Este é um princípio da medicina de Hipócrates (460 a 377 a.C.): Ferida que não cura com ervas, cura com faca. Ferida que não cura nem com ervas nem com faca, cura com fogo. Ferida que não cura nem com ervas, nem com faca, nem com fogo, provavelmente não tem cura.”

E Ming completa: ”Outra vez a valorização do real está expondo a baixa competitividade do produto brasileiro que o câmbio favorável antes escondia. Como é esta a ferida, a terapia recomendada é cirurgia nos custos de produção (resta pouca coisa a cortar – comentário meu) e cauterização das despesas públicas. Isso implica baixar a carga tributária, desonerar a folha de pagamentos das empresas e, claro, reduzir os juros. Isso tem tudo para garantir a cicatrização.”

Infelizmente, este ano já transcorreram 2384 anos da morte de Hipócrates, que indicou o remédio, diagnosticado pelo Celso Ming, mas falta coragem para aplicar o fogo na ferida. E vamos empurrando com a barriga até o último empresário e o último desempregado.

Zdenek Pracuch

P.S. - A sua empresa está preparada?
Avalie sua competitividade! - clique aqui.