CHEFIA SUPERADA
Há poucas semanas fui convidado por um importante industrial de um núcleo calçadista para efetuar aquilo o que chamo de “radiografia” da indústria. Trata-se de uma análise dos métodos operacionais, da gestão, do produto em si, da qualidade e do quadro geral da indústria. Geralmente permaneço três dias na fabrica, onde tenho liberdade de colher todo tipo de informação, conversar com todas as pessoas e pedir todas as explicações e justificativas para os procedimentos em uso.
Depois de setenta anos de atividade em todos os postos na indústria de calçados, incluindo-se sete anos de chefia do departamento de calçados de uma trading company na Suécia, que me proporcionou o contato com todos os tipos de indústrias de calçados no mundo inteiro, faço as minhas análises comparativas com aquilo o que encontro e com aquilo o que sei que poderia ou deveria encontrar.
O relatório daí resultante é uma espécie de guia para definir o caminho para melhora. No caso que estou descrevendo, nada fugiu ao roteiro. Fiz a avaliação, analisei os pontos fortes, as possibilidades de melhoras e apontei os pontos falhos. Não fiquei absolutamente surpreso em verificar que, um dos pontos mais fracos, foi a equipe dos supervisores, hoje chamados de líderes, para ser politicamente correto. Só que, infelizmente, de liderança a equipe em questão não tinha nada.
Talvez, sentindo-se ameaçados com a possível descoberta da fraqueza na condução dos seus subordinados, procuravam justificar o injustificável. Dando explicações sem nenhuma base, muitas vezes ridículas, demonstravam que não estavam a altura do crescimento da indústria, nem sob ponto de vista de gestão, nem do conhecimento da tecnologia e muito menos da condução dos homens.
À pergunta, porque existe tanto desperdício no corte a resposta padrão foi “mas isso está tudo no cálculo do consumo!”. À pergunta por que há tanto material em giro, parado, a resposta uniforme foi “é bom ter uma “frente”, porque uma máquina pode quebrar e a gente não precisa parar!”. Ao perguntar quantas vezes isso aconteceu no ultimo mês, geralmente não houve resposta, ou a variante era: “Isso é problema do planejamento!” Quando objetei sobre a qualidade discutível do produto a resposta foi que “as devoluções não são tantas assim!”.
O proprietário da empresa, quando indagado, por ocasião da entrega e da discussão do relatório de que modo selecionava e nomeava a chefia dele, foi taxativo – não há seleção alguma, é tudo “pessoal que começou comigo quando começamos a trabalhar!” – Tudo bem, cada um tem métodos de trabalho próprios que são aceitáveis, desde que não prejudiquem o rendimento do coletivo! - Mas com a crescente complexidade da gestão industrial, não admitimos ninguém, nem para porteiro, sem ter um perfil psicológico de adequação para a função. O que dizer, então, de liderança!
A minha pergunta seguinte foi óbvia – por que não usa serviços de psicólogo(a) profissional para ajudar na seleção do pessoal, com ênfase especial para os cargos de responsabilidade? Com este passo já estou reduzindo, em muito, o perigo de colocar uma pessoa sem predicados numa posição onde, de antemão, já sei que estarei perdendo o investimento.
Por que escrevi o artigo de hoje sobre este tema? Escrevo, porque recebi um e-mail da psicóloga que foi contratada por esta empresa, dizendo, que fez testes para definir o perfil da chefia e foi aquele desastre já anunciado. E solicitou uma orientação para definir o perfil das qualidades de um bom líder, que tenha condições de atuar de acordo com os requisitos da indústria no terceiro milênio.
A todo momento podemos ver na literatura especializada ênfase cada vez maior sobre a baixa produtividade dos operários brasileiros. A culpa não é do operário. Pelo contrário, o operário brasileiro tem qualidades excepcionais de adaptação e até de improvisação que nunca vamos encontrar no operário europeu ou asiático. Não resta menor dúvida que os dois mencionados, possuem maior disciplina de trabalho e até na seriedade da execução. Mas não existe justificativa para o fato, de o operário norte-americano ser cinco vezes mais produtivo que o brasileiro (revista Exame).
Ninguém poderá negar que, o operário brasileiro, desde que bem instruído, treinado e conduzido, pode ombrear até com vantagem, com qualquer operário no âmbito global. – Mas se os condutores, líderes dele, não estiverem a altura do que se exige deles no papel da liderança, será difícil diminuir a distância que nos separa da produtividade per capita do restante do mundo.
Não me cabe opinar sobre outros ramos industriais mas, posso afirmar com toda convicção, que na indústria de calçados, neste item, estamos muito atrasados. Chega de contemplar o próprio umbigo ou esperar que o Governo tomará alguma providência para salvar a indústria de calçados. Cabe exclusivamente a nos, acordar e mudar o rumo!
Zdenek Pracuch
11/03/13