CÂMBIO É SÓ UMA PARTE DO PROBLEMA

O pacote cambial prometido pelo governo não apresentou nenhum alívio aos exportadores de calçados. Foi mais uma ilusão que acabou. Mas uma outra ilusão toma conta dos nossos exportadores – aquela de que com um câmbio mais favorável, digamos 2,30 ou 2,40 poderiam recomeçar as exportações. Como já disse, uma ilusão, porque hoje não se trata mais de uma questão de cotação do dólar ou de uma operação aritmética.

O que acontece, é que com a paradeira nas exportações, o Brasil abriu espaço para outros países exportadores, principalmente orientais que, logicamente, aproveitaram a oportunidade e tomaram o lugar que o Brasil conquistou á custa de anos de árduo trabalho.

Aprendi esta lição de um americano que andou muito por Franca, nos anos setenta quando exportar era tão fácil! Chamava-se Allan Goldstein e era diretor da grande importadora Kayser-Roth. Mais tarde passou a ser sócio diretor da Smerling Imports, que importava grandes volumes de calçados brasileiros, praticamente todos de Franca.

Um dia aconteceu que atrasamos um embarque e perdemos o navio. Allan reclamou e eu tive a ousadia de discutir com ele, que por causa de duas semanas não precisava criar caso. “Você está enganado, Sidney” (os americanos me chamam de Sidney, por causa do meu nome de batismo, ser impronunciável para eles), disse me o Allan, “as prateleiras das lojas têm uma metragem bem definida. E se no lugar reservado para o seu calçado entra uma outra caixa, Você terá que trabalhar três vezes mais duro para tornar a reocupar este lugar!”

“Se alguém comprou de você e não recebeu, aconteceu o pior pecado do mercado: ficar sem mercadoria. E isso não se esquece!” Eu também não esqueci esta lição.

Hoje não perdemos mercado por ineficiência, mas por não termos sido bastante competitivos. Os outros venderam mais barato e tomaram e continuam tomando o nosso lugar. A tragédia se resume no fato, de que não temos munição suficiente para a batalha de reconquista. Materiais por materiais, estamos perdendo exportando os melhores couros. Em sintéticos estamos ainda aprendendo a produzir. Em desenho e criação idem e em qualidade já fomos igualados.

Do preço nem é bom falar. Temos altos encargos sociais, nossos impostos são altíssimos em comparação com os outros países e mais o problema dos juros! Sem falar na falta de uma boa gestão, condizente com 3° milênio. Aliás a queixa generalizada sobre os juros tem muito a ver com o tipo da gestão.

Se o capital de trabalho é desviado para compra de fazendas, campeões de gado leiteiro, aviões e ultimamente até helicóptero (espero que alguém possa me explicar para que uma fábrica de calçados precisa de avião ou helicóptero!) não é de se estranhar, que a empresa começa a comprar a prazo (pagando mais caro por isso) e mendigando descontos de duplicatas nos bancos, pagando juros pela hora da morte.

Por que os europeus não gostam de trabalhar com cartas de crédito? Porque não querem onerar os custos deles com 1,5 – 2,0 % que o banco irá cobrar pela abertura da carta de crédito, se eles podem pagar pelo bank transfer ou com cheque sem custo nenhum?

Como disse acima – câmbio é só uma parte do problema. As causas e as conseqüências são bem mais profundas. Agora está sendo apresentada a fatura pelos maus métodos de gestão, pela falta de planejamento, pelos desperdícios e assim por diante. O ufanismo sem base, como o pronunciamento do Martinho Fleck em Nova Serrana: O calçado brasileiro é o melhor do mundo! Ou o de um outro empresário francano: O calçado bom é aqui! O gringo tem que vir aqui, não tem para onde ir! – hoje soa triste senão ridículo.

Há muito o que fazer. a indústria de calçados ainda tem muita munição. Gestão mais profissional, economias, criatividade, originalidade, melhores serviços etc. A lição das últimas guerras ensina que os exércitos lutam com mais bravura, quando o campo de batalha se desloca para o próprio país. E isto já está acontecendo por aqui. Já estamos defendendo nosso território dentro do nosso território. É só não perder mais tempo e encarar a situação com humildade e coragem.

Zdenek Pracuch