BORRACHA CREPE ESTÁ VOLTANDO ?

Com a atenção de um número cada vez maior de consumidores voltada para problemas de sustentabilidade, modo de vida mais saudável, para questões ambientais, questão de aproveitamento  e de reciclagem de produtos usados e descartados, não é de se estranhar, que a matéria prima orgânica por excelência, que não contém componentes químicos poluentes esteja fazendo seu “come back”.

A borracha natural, látex, proveniente da arvore Hevea Brasiliensis, plantada e cultivada em números cada vez maiores, até no Estado de São Paulo (quem viaja para Barretos, São José do Rio Preto e redondezas, vê um seringal plantado vizinho de canaviais a cada quilometro).

Franca já produziu grandes quantidades de botas até o tornozelo, com solados de crepe natural, tanto assim, que foi até necessário “inventar” uma freza especial para fazer o contorno dos solados, porque as usuais, de alta rotação emplastavam a borracha pelo calor e tornavam-se até perigosas de causar um acidente e ferir a mão do frezador. Não era raro ver o pesado calçado voar pela fábrica, com forma dentro, arrancado que foi da mão do operário pela alta rotação da máquina.

A freza especialmente construída, possuía aberturas que permitiam um esfriamento, até certo ponto, suavizando assim a operação. Uma vez dominada a tecnologia, muitas fábricas produziam e exportavam dezenas de milhares de pares para Estados Unidos. Não pode ser esquecido o papel de pioneiro, instrutor e promotor desta construção, mister Saul Katz, criador do inesquecível Rockport, junto com a turma da Pestalozzi.

Um calçado clássico, que serviu de inspiração para centenas de modelistas, foi o legendário Clark’s Desert Boot, com solado de borracha crepe branca, lavada. O calçado que hoje é produzido (na China) para a Clark’s of England incorpora todos os elementos de eterna elegância. Simplicidade do desenho, linhas limpas e funcionalidade completa. Seria óbvio falar do conforto ou de facilidade do calce com somente quatro ilhós em cada pé do calçado.

Quando voltou do Egito no fim da Segunda Guerra Mundial, Nathan Clark trouxe na bagagem uma bota que os oficiais ingleses criaram e mandavam fazer nos sapateiros locais para usar enquanto combatiam no deserto. As botas eram leves, flexíveis, evitavam a entrada de areia e como eram feitas de camurção, não necessitavam de poli-mento constante. E, importante, tinham solas de crepe natural.

Em 1946 desenvolveu nova versão da bota., simplificando o desenho para duas peças por pé: a parte traseira e a gáspea que também formava a língua. A construção era o que aqui é chamada de assandalhado (em inglês “flexible”) e o salto também de crepe, da mesma espessura da sola era colado sobre a sola. Simples, eficaz, barato e elegante.

O que mais precisamos num calçado? Mais de sessenta anos de vida, as Desert Boots estão ainda no mercado, vendendo bem e a única modificação significante foi a mudança da palmilha de couro para palmilha de placas na base de celulose, com fibras de couro.

Borracha natural é um excelente material e deveria ser usado mais do que presentemente é feito. Atende a todos os requisitos: provem de origem natural, abundante e renovável. Resiste bem ao desgaste, esteticamente agradável e compatível com o ambiente. Qualquer material desperdiçado durante o processo de fabricação, pode ser imediatamente reciclado para um grau inferior e aproveitado do mesmo modo. Nem mesmo a árvore é desperdiçada após a cessação da produção do látex. A madeira dela serve para mobília.

Os criadores da moda vivem à procura de diferenciação e de novidades. Pois, senhores, aqui temos uma, que está à espera de um aproveitamento maior.

Zdenek Pracuch