BOLA DE CRISTAL
Acabo de assistir a entrevista com o ex-ministro da Fazenda Maílson de Nóbrega no programa Show Business do João Dória Jr. Como não podia deixar de ser, a pergunta principal como, aliás, todo o programa girava em torno da indagação: Brasil já se livrou da crise? Qual será o comportamento da economia no segundo semestre e no ano que vem?
Maílson de Nóbrega alinha no time de economistas de primeira linha e sempre é proveitoso ouvir a sua opinião ou seguir seus conselhos. Também desta vez, embora com leve otimismo, não tentou pintar com cores róseas a situação, como agora ficou na moda, seguindo o otimismo oficial no sentido “nunca antes neste país”.
Há uma melhora, sem nenhuma dúvida em vários segmentos da economia, tanto pelas contingências naturais como o esvaziamento dos estoques, como pela intervenção governamental, concedendo isenção de impostos, aumentos salariais e facilidades no crédito, medidas estas que se refletiram positivamente no desempenho em determinados setores. Mas deduzir disto que o Brasil já saiu da recessão seria prematuro e irresponsável, como bem destacou Maílson de Nóbrega.
Esta também é a opinião do ex-presidente do Banco Central, Carlos Langoni, que acaba de voltar da Europa e notou, que o clima do profundo pessimismo está se dissipando, principalmente na Alemanha. Na opinião dele a Europa e Japão serão os últimos a sair da crise. Os Estados Unidos, dentre os paises industrializados deverão sair entre os primeiros. Entre os emergentes a Índia está desacelerando demais e a Rússia vai demorar por causa do petróleo. A China vem desempenhando papel esperado, ou seja, mantendo o comércio internacional aquecido, em termos, ao mesmo tempo, que investe pesadamente dentro do país, simultaneamente, incentiva o consumismo.
Agora quanto ao Brasil, Langoni acredita, que o crescimento de 7% de economia como o foi no terceiro trimestre de 2008, com o investimento crescendo três vezes o PIB, irá demorar pelo menos dois anos, para ocorrer de novo, em 2011. Porque durante 2010 ainda haverá muita capacidade ociosa e os investimentos só se efetuam com horizontes claros e definidos.
Este ano está sendo marcado pela acentuada queda de exportações, na ordem de 20%. No ano que vem também não devem subir muito. Mas a verdade é que a dependência do crescimento brasileiro até 2011, até que a economia mundial volte com um dinamismo maior, vai continuar basicamente sendo do consumo privado. – A minha pergunta é: e como fica nisso tudo o tão badalado PAC?
Será que Langoni não está muito otimista? Para os Prêmios Nobel, Joseph Stiglitz “estamos no fim do começo da crise” e para Robert Mundell a crise “está entrando no terceiro quinto da sua extensão”.
O decano dos economistas brasileiros, o respeitado economista José Roberto Mendonça de Barros está muito cauteloso nas suas previsões. Na opinião dele, “Brasil vai crescer menos e diferente. Grande motor do crescimento brasileiro será o setor de commodities com percepção muito boa para todos os tipos de alimentos. Mesmo que a China desacelere, Mendonça de Barros, não vê grandes problemas, porque a demanda por alimentos no mundo cai muito pouco. Um desempregado americano não come menos do que quando estava empregado. Ele corta o carro, não paga prestação da casa, não paga o cartão de crédito, mas não deixa de comer. China e Índia estão crescendo e a demanda por alimentos não cai. Em outros países, os governos fazem das tripas coração para suportar o consumo de alimentos por questões sociais e políticas.”
Esta é a visão dos economistas, que tem acesso às informações privilegiadas, são pessoas de grande visão e experiência e, no momento, não tem nenhum interesse político em pintar um quadro pouco realista da situação econômica mundial, com os reflexos diretos na economia brasileira.
O que um empresário calçadista deve deduzir de um quadro como o apresentado? Pode e deve deduzir vários aspectos, para planejar o futuro o mais seguro possível para a sua empresa para os próximos, no mínimo, dois anos. Em primeiro lugar: não contar com expansão do mercado nacional, mas tentar conservar o espaço já conquistado, com melhores serviços cumprindo ou apressando prazos de entrega; lançamentos mais adequados, menos espaçados, com melhor pesquisa de mercado; não se iludir com abertura de exportações significativa – isto com respeito às ações externas a empresa.
No aspecto interno da gestão, aprofundar o conselho da Dª Luíza Trajano (dona do Magazine Luiza) “sentar em cima do cofre!”. Racionalizar os processos a partir da modelagem econômica e racional. Evitar todo tipo de desperdício e estabelecer rígidos controles de gastos de matéria prima e de insumos. Implantar os controles econômicos de contabilidade de resultados e acompanhamento da evolução ou involução do capital de giro – semanal!
E, principalmente, deixar vaidades de lado e analisar os investimentos improdutivos. Adiar planos de expansão que requerem construção ou compra de terrenos. Nem falo de aviões ou helicópteros! - Bem, quem agir contra estas recomendações, ou não sabe o que faz ou faz parte de esquema de lavagem de dinheiro.
Zdenek Pracuch