A ERA DO TRABALHO BARATO NA CHINA ACABOU

Calma, calma, calma. Nada de comemorações precipitadas!

Tenho em mãos um artigo do jornalista Dexter Roberts da revista Newsweek que me foi enviado por um amigo calçadista. Não há nenhum motivo para comemorações. O fato de que o governo chinês, sob pressão internacional decidiu promulgar algumas melhoras na legislação que ordena as condições de trabalho na China, na prática não significa nada.

Quem convive ou estuda a China por dever de ofício, sabe que, como no Brasil, há leis que “pegam” ou não. Acrescente-se a esse fato a corrupção generalizada, pouca esperança existe sobre o efeito prático de alta na formação de preços de produtos chineses. Discrepância entre os impostos chineses e os nossos, entre os direitos garantidos pela CLT e a sua comparação com o que possuem chineses, demonstra a inutilidade de qualquer especulação sobre a competitividade mais fácil que poderíamos conseguir.

Mr. Roberts também está ligeiramente equivocado sobre o fato de algumas fábricas da China terem emigrado para Vietnã ou até Índia em busca de melhores condições e preços mais baixos. Se a grande fábrica do Tim Hsu investiu nisto 7 milhões de dólares, (11 milhões de reais), para as condições chinesas quer dizer, que montou uma fábrica de amostras. Quem se deu o trabalho de ler e estudar o livro do general estrategista Sun Tzu – A arte da Guerra que influencia há três mil anos a vida dos chineses e ultimamente serve de inspiração aos empresários, só pode ver nesta migração a lição sobre a ocupação dos territórios “antes que o inimigo o faça”.

E olhem que a Índia se prepara para enfrentar a China a começar pelos artigos de couros e calçados, como já escrevi num outro artigo Disputa entre os gigantes do calçado. O pensamento do chinês é claro: Vamos para lá antes que cresçam demais! - A preocupação do Mr. Roberts que as exportações chinesas, por causa da recessão norte-americana, irão crescer este ano somente 5 % seria música para ouvidos de economistas de muitas nações.

É justamente neste ponto que qualquer movimento do colosso chinês é uma ameaça para nos. É um fato mais do que natural que, os chineses tentarão compensar as possíveis perdas na exportação para Estados Unidos com maior pressão sobre outros grandes mercados onde a presença deles ainda é discreta, como por exemplo, Brasil.

É notório o despreparo do fisco brasileiro para efetivamente combater contrabando e até para acompanhar importação regular. Para um território igual ao de Minas Gerais, a França tem 30.000 fiscais aduaneiros. Brasil, para este colosso do tamanho de um continente, tem 7.000. O senador Romeu Tuma declarou uma vez, que o aeroporto de Galeão (hoje Tom Jobim) é furado feito queijo suíço. Pergunto me – só o Galeão? Sabe se, que na fiscalização de containers somente 3 % (três por cento) passam pela “Via vermelha” onde são abertos e conferidos. O resto de 97% (noventa e sete por cento) entra livre de fiscalização pela “Via verde”. Quantos deles estão lotados de calçados e com que preço declarado?

No lugar de esperar por um milagre, os calçadistas fariam melhor, estudar por sua vez as estratégias a adotar para o tsunami que se forma no horizonte. Temos muitas armas e poderosas para travar um bom combate. – Sei pelo menos de uma francano – Renato Furtado - que estudou Sun Tzu e que poderia dar lições sobre a estratégia de sobrevivência com base no estudo do comportamento dos concorrentes. Hoje ainda mais fácil de identificar, imitar e aplicar – porque estaremos sendo alvo da mesma tática que foi aplicada na União Européia, quando esta derrubou as barreiras de importação

Zdenek Pracuch