AUMENTAR A PRODUÇÃO ?

Ao lado do pessimismo reinante entre os calçadistas em Franca e, principalmente, na região Sul, acontece em Nova Serrana um fenômeno interessante: todo mundo quer aumentar a produção. Com quem a gente fala, está sonhando em aumentar a produção.

Em que se baseia este otimismo é nebuloso. Todos os indicadores desaconselham uma ação semelhante mas, os calçadistas dominados por uma irresistível vocação para se sacrificar, entram nesta onda sem pensar, nem um pouquinho sobre o que está acontecendo em redor. – É lógico que todo mundo quer progredir. É uma atitude saudável e louvável, mas como todo alpinista sabe muito bem, a gente deve saber onde coloca os pés, com absoluta segurança. Porque um passo em falso e adeus.

Vamos analisar primeiro o cenário nacional. A euforia demagógica do governo Lula quer nos fazer crer que estamos no melhor dos mundos, que o Brasil é uma ilha de prosperidade e que estamos vacinados contra todos os males que vem de fora. Nada disso é verdade. Os últimos dados o comprovam. O déficit nas contas externas já está aqui. Importações maiores em 21 bilhões de dólares do que exportação – num único mês com tendência á piora. Começo da inflação já está presente, cujo combate exigirá medidas dolorosas. A restrição do crédito será uma conseqüência automática para frear o consumo. É visível o excessivo endividamento da população, que alegremente compra até automóveis para pagar em OITO anos! Que isso trará uma inadimplência é fácil de prever, mas difícil de evitar!

Consequentemente ao endividamento, haverá redução de poder de compra, agravado mais ainda pela subida dos preços de alimentos. Será que vai sobrar dinheiro para comprar outro par de calçados, se este que está no pé agüenta mais um ou dois meses? Os materiais sintéticos e borracha já apresentam aumento de preço em conseqüência do aumento do preço de petróleo. Será que vai ficar só nisso?

E o cenário internacional? Crise do petróleo, começo da recessão norte-americana, começo da inflação norte-americana, a duras penas combatida pelo Banco Central (FED), sem sucesso visível até agora. Com mercado americano em recessão, os orientais estão se voltando para outros mercados, inclusive para esta “ilha de prosperidade” chamada Brasil. Nos primeiros dois meses deste ano as importações de calçados no Brasil aumentaram em 52,3 %. Preciso dizer mais?

Os empresários que querem produzir mais, ignorando estes sinais estão arriscando o futuro das suas empresas. Já existe em Nova Serrana uma competição insana de recrutamento de funcionários, inflacionando os salários, sem nenhuma contrapartida em produtividade. Em que se traduz isso? Simplesmente em maiores custos e uma competição mais acirrada, e em maior dificuldade em combater os importados, com os preços subfaturados.

Qual deveria ser, então, uma estratégia sadia para sair desta situação que promete crescer em seriedade? – No lugar de aumentar a produção deveria haver, isso sim, um aumento de qualidade, um aumento de criatividade e originalidade no desenho de modelos, um aumento na racionalização de trabalho, um aumento no controle dos desperdícios e, principalmente no aumento de eficácia de atendimento dos pedidos, no cumprimento de prazos de entrega e no atendimento de reclamações.

Se depois de tudo o que foi acima solicitado for cumprido satisfatoriamente, aí sim, teremos uma plataforma segura para um aumento de produção sadio, beneficiando tanto o produtor como o consumidor.

Gostaria muito de estar errado. Gostaria muito que alguém me mostrasse, com argumentos e fatos reais, que a situação não é aquela que apontei neste artigo. Mas, infelizmente, nada indica uma possível melhora no cenário calçadista global em favor da indústria de calçados brasileira. Não estamos sozinhos nesta calamidade. A indústria têxtil, de móveis, de ótica, de brinquedos, de componentes eletrônicos e daqui a pouco, outros ramos industriais sentirão o embate dos importados, com ajuda do dólar fraco e com ajuda do governo, que só se interessa em exportar “commodities” e por tabela exporta os empregos. Como não? Já temos nas lojas brasileiras de calçados produtos Azaléia, West Coast, Picadilly e outros “MADE IN CHINA”!

Nunca antes neste País .............

Zdenek Pracuch