AQUI COMO LÁ ...
Correu como fogo na mata seca a notícia divulgada pela televisão sobre as fábricas de calçados chinesas que estão fechando, com operários perambulando pelas ruas a procura onde se abrigar, sem emprego e sem dinheiro.
Houve até uns comentários maliciosos do tipo – já chegou a vez deles, agora é que eles vão ver – que somente provaram mais uma vez, que ignorância é um mal universal e, como é perigoso julgar algo ou alguém, quando não se tem elementos suficientes para um julgamento justo.
Fecharam alguns milhares de “fábricas” na China? Sim. Houve algum abalo significativo na indústria chinesa de calçados? Infelizmente, para nos, não houve. O que aconteceu, então? A mídia mentiu e apresentou fatos distorcidos? Absolutamente. Só que cada notícia deve ser inserida no seu contexto total e não ser apresentada como um fragmento. Foi o que aconteceu neste caso.
O fantasma do desemprego virou realidade no nosso meio industrial. A cruel definição da diferença entre a recessão e a depressão é: a recessão é quando os outros perdem emprego e a depressão é quando Você perde o emprego! Infelizmente, estamos mais perto da depressão do que da recessão. Isto se refletiu na queda das vendas esperadas para o Natal e na crescente inadimplência, que já está deixando bancos e financeiras de cabelos arrepiados. - Mas, vejamos o que está acontecendo na China e qual é o paralelo com a nossa situação.
Quando as grandes fábricas estatais chinesas foram desmembradas, operários e líderes capazes se sentiram a vontade (e encorajados pelo Partido) de se estabelecerem por conta própria e assim nasceram milhares de pequenas fábricas e algumas nem tão pequenas. Repetiu-se aquilo o que estamos vendo a todo instante no Brasil: abertura de indústrias, ou melhor, artesanatos mecanizados, sem capital, sem experiência administrativa, sem crédito, baseados na simples vontade de progredir e crescer, ajudados pela conjuntura favorável.
Com a retração global, a conjuntura que até então era favorável, deteriorou da noite para o dia e as fábricas que viviam de pedido em pedido, de um adiantamento até outro adiantamento ficaram sem condições de sobrevivência. Como produtores trabalhavam muito bem. Mas faltou crédito e não souberam gerenciar. Isso não lhes parece familiar? – Que não nos enganemos. Estou falando dos pequenos. Os grandões estão sobrevivendo, com menores encomendas, talvez, mas apoiados em nomes altissonantes tais como Nike, Puma, Adidas, Lotto, Timberland e outros. Para estes a crise chegou suavizada e, sem sombra de dúvida, vão sobreviver.
A mesma coisa está acontecendo e vai acontecer entre nos. A diferença não será tanto de tamanho como da gestão dos negócios. Como diz a analista Anne Critchlow do Banco Société Générale: “É na hora em que o mercado se retrai que as diferenças na condução dos negócios têm o maior impacto.”
E o que é uma boa gestão? Alberto Serrentino da Consultoria Gouvêa de Souza tem a resposta pronta: “Ausência de dividas. Esse tem sido o fator decisivo para a manutenção do crescimento apesar da crise”. Este é o nosso caso e o caso dos chineses que já fecharam as fábricas e perderam empregos. Numa conjuntura desfavorável, os erros, ou amadorismo na condução dos negócios não são perdoados.
Entretanto, as empresas bem conduzidas, têm um planejamento baseado na pesquisa de mercado séria e bem conduzida, com custos enxutos e com organização de vendas bem estruturada. Estas têm tudo para sair da crise mais fortalecidas e, prontas para o período de recuperação, que fatalmente segue depois de cada desaceleração da economia. E desta vez não será diferente
Mais uma vez acontecerá o expurgo natural, com uma única diferença. Após esta desaceleração não haverá mais espaço para o re-estabelecimento dos pequenos amadores, cujo único capital é a vontade de realização, do progresso individual. Para estes indivíduos ambiciosos e realizadores, na indústria de calçados, não haverá mais espaço. O mercado do calçado barato e, mesmo assim, de boa qualidade estará definitivamente nas mãos dos orientais e, em um segundo estágio, dos africanos.
Zdenek Pracuch