APRENDER FAZENDO
Nas fábricas onde presto assistência sou abordado muitas vezes por jovens promissores que querem crescer profissionalmente e pedem orientação sobre estudos mais adequados para atingir a realização profissional. A dúvida sempre está entre uma faculdade de administração ou ciências contábeis ou econômicas.
Do meu ponto de vista sempre aconselho, dependendo da função ou da atividade dos jovens, a escolha entre faculdade de economia ou a pouco conhecida faculdade de engenharia de produção. É de espantar de como os jovens desconhecem esta última possibilidade de estudos. Observo os jovens vinculados a tarefas administrativas ou produtivas e vejo o que poderia significar para o futuro deles uma base teórica, bem fundamentada.
Sem desmerecer o ensino proporcionado pelas faculdades de administração, vejo que o currículo é muito abrangente, muito teórico e não prepara os alunos suficientemente para o que irão necessitar na vida cotidiana de uma empresa. As faculdades de engenharia de produção ou de ciências econômicas estão muito mais perto da vida prática. E com a vivência diária dos problemas, o aluno faz o estágio ao mesmo tempo em que trabalha.
Fomos assim educados e treinados na Escola Bata de Trabalho, onde passávamos durante oito anos metade do dia na fábrica e a outra metade na escola, revezando-nos com o colega, que seguia o ritmo oposto. Tudo isto me voltou à mente depois de ter lido a entrevista que o prof. Roger Schank concedeu à revista Exame. Como diz a revista no prefácio da entrevista: “Já temos intelectuais demais. Para o especialista americano crítico do modelo tradicional de educação, o verdadeiro aprendizado vem da prática, não de teorias explicadas em sala de aula.”
Vale a pena conhecer alguns dos conceitos do prof. Schank: “Do ensino básico à pós-graduação, - o ex-professor da Stanford e Yale considera as aulas chatas demais. – As escolas foram inventadas pelas religiões e até hoje são iguais; uma pessoa fala e outras ficam caladas tentando memorizar. Não fazem ninguém pensar originalmente. A maior parte do ensino e desnecessária. Álgebra? Ninguém usa. Mas cada criança tem de fazer equação do segundo grau para passar na prova e a seguir esquecer.”
E prossegue na sua argumentação: “A gente aprende quando pergunta. Uma criança de 2 anos questiona o tempo todo. Aprende a falar para pedir comida, não porque tem aulas de gramática. Começa a andar sem ter aula de educação física. E, quando assimila, passa a andar inconscientemente. Isso é aprender. – Nos cursos de pós-graduação que preparo, não há leituras, aulas, nem provas. Tudo o que fazemos é produzir.”
E quando perguntado qual é o papel das empresas na educação veio a resposta: “As empresas são o melhor lugar para fazer o que proponho, porque não tem as regras das escolas. Em vez de tentar prevenir erros, os treinamentos devem estimular os funcionários com simulações. As pessoas sofrem quando erram e refletem sobre como acertar. Ficam emocionalmente envolvidas. Isso é importante para aprender.”
Duas frases da entrevista merecem destaque. A primeira: “Muita teoria dá sono.” Tem toda a razão. Prestem atenção na palavra “muita”. A teoria é necessária, principalmente no desempenho das funções que envolvem tecnologia, mas não precisamos exagerar. A segunda frase, quando perguntado o que sugeriria para melhorar a qualificação da mão-de-obra no Brasil foi: “Tentaria ter as melhores escolas de ensino médio do mundo. Isso seria revolucionário. Permitiria que os jovens realizassem seus sonhos. Isso Brasil poderia fazer”.
Mas faz? Pelo menos para os calçadistas não faz. Das duzentas e doze escolas técnicas, criadas no governo do Lula, nenhuma foi dedicada aos calçadistas. E o SENAI com toda a boa vontade está perpetuando através do ensino técnico as tecnologias já tidas como obsoletas no século passado. Ao que parece, pelo menos para calçadistas não há escapatória. Quem sabe, os novos jovens economistas e engenheiros de produção, vão trazer e aplicar idéias novas que aumentem a produtividade e a competitividade da nossa indústria.
Zdenek Pracuch
24/12/12