AJUDAR É CRITICAR ?
Tive uma experiência nova no decorrer dos meus trabalhos, que serve como exemplo, de como é difícil introduzir novas idéias. Aliás, nada de novo. Alguns dos meus leitores, com certeza, já leram ou ouviram falar de um florentino, chamado Nicolo Machiavelli que viveu nos anos 1469-1527.
É dele a famosa observação: “Deve ser levado em consideração que não há nada mais difícil, ou mais perigoso, do que iniciar a nova ordem das coisas. Porque o reformador tem inimigos em todos aqueles que estavam lucrando com a ordem antiga e somente defensores mornos entre aqueles que poderiam ser beneficiados com a nova ordem. Isso deriva em parte da natureza do homem, incrédulo, que não acredita em nada novo até que o experimente.”
Numa das empresas a que presto a minha assistência, fui solicitado pelo empresário, por sinal um do time dos progressistas, que crescem e querem crescer mais, para apontar os pontos na empresa dele que mereceriam introdução de métodos mais modernos e eficazes.
Fiz o levantamento, mas antes de apresenta-lo ao empresário, quis discutir as sugestões com o gerente da produção porque, afinal, ele teria que conduzir as melhorias, caso o dono da empresa as aprovasse.
Para minha surpresa, o gerente de produção reagiu negativamente: “O senhor quer dizer, que estou trabalhando errado? Que não sei trabalhar?” – Não adiantava dizer que os métodos de produção aplicados, poderiam ser mais eficazes, que muita coisa, de modo como estava sendo feita o era por costume, por hábito ou por tradição e poderia ser mudada para uma produtividade e lucratividade maior. E que isso nada tinha a ver com o desempenho dele. O homem foi irredutível.
Procurei o dono da empresa e com certa frustração, joguei a toalha, dizendo que com uma atitude destas tomada pelo gerente dele, não havia plataforma para colaboração, se as sugestões de melhoria, provadas e comprovadas eram recebidas como crítica ao desempenho atual.
A psicóloga, que trabalha na empresa em tempo integral, confirmou quando lhe apresentei a minha análise. A empresa teve um crescimento espetacular, que acompanhei durante um ano. Neste ano cresceu incríveis 300 % em produção! E o que aconteceu foi, que o infeliz gerente de produção ajudou criar um monstro que o estava devorando. Não o conseguia controlar mais com métodos habituais e por isso reagia com violência para mascarar a sua insegurança. Não era caso de métodos de trabalho. Era caso para psicoterapeuta.
Infelizmente, este não é um caso isolado. E, infelizmente, torna-se ainda muito mais grave quando a vítima é o próprio empresário que, de repente, descobre que não é ele que está conduzindo a empresa, mas é a empresa que o conduz! Começa, então, a novela tão conhecida e assistida tantas vezes e cujo fim sempre termina em drama. Para os protagonistas e para os que dependem dele, com seus empregos e suas famílias.
A evolução e as mudanças são a única constante no nosso Universo. Não no universo calçadista, mas no Universo planetário que nos cerca. Tudo muda. Incessantemente. Até as células dos nossos corpos mudam imperceptivelmente, mas mudam e hoje não temos uma única célula das com que nascemos.
Porque, então, vamos nos fechar às mudanças que ocorrem com tecnologias e métodos de trabalho que estão sendo constantemente aperfeiçoados? Que são aperfeiçoadas num ritmo que se torna dificílimo de acompanhar, o que dizer, então, de introduzir? Como consolo, talvez, possa servir o que disse Machiavelli – é difícil, mas a humanidade age assim.
Felizmente, temos empresários, que não tem medo de inovar e mais ainda. Sabem cercar se de pessoas, que recebem as inovações e mudanças de braços abertos, sem medo de aprender a crescer. Lembram do candidato à presidência dos Estados Unidos, mr. Ross Perrot? Foi considerado um empresário genial. Li na revista Fortune uma entrevista com ele onde o repórter perguntou sobre o segredo do sucesso dele e como ele conseguiu ser empresário de tanto sucesso, que a empresa dele, de informática, foi comprada e incorporada pela General Motors.
Mister Perrot respondeu nestes termos: De gênio não tenho nada. Minha genialidade e a sorte nos negócios se devem ao fato, de saber me cercar de pessoas mais inteligentes e mais preparadas que eu! – Se o infeliz gerente de produção, que bateu com a cabeça no teto da sua capacidade, tivesse ouvido o conhecesse o segredo do mr. Perrot, poderia continuar crescendo e ajudando a empresa a crescer muito mais, no lugar de considerar a ajuda como ofensa pessoal ou julgamento da sua capacidade profissional.
A indústria brasileira de calçados, hoje, em termos de tecnologia, qualidade, equipamentos e desempenho está no nível mundial. Infelizmente, isso não pode ser dito sobre a qualificação do elemento humano e, principalmente, nos postos de liderança. Há muito trabalho, neste sentido, pela frente e fica a pergunta – ainda haverá tempo suficiente para executá-lo?
Zdenek Pracuch
11/04/11