O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
Esta é a pergunta para a qual muita gente do ramo calçadista está procurando uma resposta plausível. Estamos em pleno segundo semestre, época esta, que em tempos normais, presumia fábricas cheias de pedidos, trabalhando em horas extras para dar conta das entregas com vistas ao mercado do fim do ano.
Não é que não haja empresas que já venderam a produção possível até o fim do ano, mas em comparação com outros anos anteriores, quando todas as fábricas viviam esta situação, este ano é completamente atípico. Poucas são as indústrias que gozam desta situação privilegiada. A despeito do oba-oba oficial sobre o pleno emprego, sobre o aumento da renda dos assalariados, sobre o aumento de crédito e conseqüente aumento de consumo, na indústria de calçados, reflexos desta euforia são insignificantes.
Pelas estatísticas oficiais, o aumente de vendas no varejo foi de 1,4 % . Mas também pelas estatísticas oficiais houve uma queda de produção na indústria de calçados de 8,9 %. Interessante, que não se vem pessoas descalças na rua. Todos andam calçados. Parece, que as importações realmente estão afetando a produção nacional. Ultimamente estamos importando calçados até do Paraguai!
Que perdemos mercados importadores, dos mais importantes como Estados Unidos ou Europa, já é do conhecimento geral. Não adianta tapar o sol com a peneira dizendo que estamos entrando nos mercados árabes e africanos. Basta ver o potencial de compra destas regiões para ver, que esta penetração só justifica o turismo oficial e verbas de promoção a fundo perdido.
É evidente que não será por aqui que encontraremos a solução para os males que afetam a indústria nacional de calçados. É notória a desvantagem dos impostos altos, do custo de mão-de-obra, que não beneficia diretamente o operário, mas são os penduricalhos sobre a folha de pagamento, FGTS, avisos prévios ultimamente aumentados sem razão nenhuma, INCRA, sistemas S etc. etc..
Se não bastasse isso ainda temos a voracidade crescente de cadeias de lojas, que estão se expandindo com a rapidez de células cancerosas as custas dos empresários produtores. Hoje temos cadeias de mais de cem lojas formadas nos últimos cinco anos! Como foi possível? A explicação é simples. Pouca gente sabe que as lojas hoje em dia remarcam o preço de compra em até 2,4 vezes, o que faz uma sapatilha feminina de 24,90 reais ficar na vitrine por 59,90 reais!
Matéria prima, mão-de-obra, comissão de vendas, impostos, fretes etc., incluindo. o lucro quando o há, tudo isso representa menos que os 35,00 acrescidos pelo comerciante! Por mais que a gente se esforce não dá para entender como a despesa da loja pode representar mais do que o custo total do produto, posto na loja ou no depósito da cadeia de lojas.
Acrescente se a isso ainda o fato de que há indústrias vendendo com até 210 dias de prazo para pagamento e a explicação fica simples para este crescimento financiado pela indústria. Em 210 dias dá para girar o capital representado pela mercadoria em até duas vezes, sem aplicação de um centavo sequer do capital próprio.
Quem teve oportunidade de assistir a negociação de compradores dos donos do mercado nas assessorias de vendas com os industriais, sai enojado, sem acreditar no que acaba de assistir. São eles que ditam os preços, condições e tratam com desdém o produto apresentado, não ficando inibidos nem em joga-lo no chão! Estas cenas são vividas diariamente nas tais chamadas “assessorias” de vendas que aceitam este papel para os grandes conglomerados.
Por que podem agir assim, os grandes? Porque tem os seus compradores residentes na China ou noutros países asiáticos, com os quais não podemos competir de modo algum com a estrutura e métodos reinantes na indústria de calçados brasileira.
Como poderíamos competir neste mercado kamikaze? Há como, sim, mas isso requer um planejamento cuidadoso, uma estratégia corajosa e métodos novos de comercialização, embora nem tão novos, porque já estão sendo aplicados há dezenas de anos em outros países. – Por que não ter uma cadeia de lojas próprias? Com estoque mínimo, reposto até diariamente pelo Sedex do depósito central da fábrica? Com preços altamente competitivos, remarcando só uma vez, contra 2,2 ou 2,4 das grandes cadeias de lojas? Por que não, se o lucro básico já ficou na fábrica?
É óbvio que ninguém deve tentar esta estratégia “à moda da casa”, mas aplicar os métodos já praticados há anos, e hoje facilitados demais pelo avanço da informática, onde posso controlar o movimento do caixa e vendas de modelos, por cor e tamanho no ato do registro na caixa registradora, tendo a loja dentro da fábrica ou a 3.000 km de distância.
Não resta dúvida que, grande parte das dificuldades pelas quais passa a industria de calçados é causada pela obsolescência de métodos de venda. Como me foi dado ver numa proeminente fábrica, que afirmou ter ótimo representante no Estado de São Paulo e quando pedi detalhes, verificamos que vendia em 28 cidades! Quando existem 448 municípios no estado. Pelo visto, a produção da fábrica deveria duplicar para atender só Estado de São Paulo! Quantas empresas estão na mesma situação? Existem males, mas também existem, sim, os remédios!
Zdenek Pracuch
22/10/12